O botão da vovó
Na caixinha da vovó, Mirko encontra um velho botão azul com uma lasca e, junto com ele, as histórias do bisavô, da mamãe e um segredo antigo.
Série “O baú da vovó” · história 1 de 2
- Uma história tranquila
À noite, Mirko já estava de pijama. Só que faltava um botão no pijama, bem no meio, e ele ficava abrindo o tempo todo.
— Vem cá — chamou a vovó, e colocou a sua caixinha sobre a mesa.
Mirko levantou a tampa. Plim-plim! Os botões se mexeram como peixinhos. Brancos como dentinhos. Vermelhos como frutinhas de sorveira. Miúdos como sementes de papoula.
E bem no fundo havia um azul. Grande, redondo, com quatro furinhos. De um lado tinha uma lasca, como se alguém tivesse dado uma mordida nele.
— Vovó, foi um ratinho que roeu?
— Ratinho aqui não tem — disse a vovó. — E esse botão é mais velho do que eu.
— Mais velho do que você? — Mirko abriu a boca de espanto.
— É. Ele já esteve no casaco do seu bisavô. O casaco era escuro e pesado. Seu bisavô usava no inverno: croc-croc na neve. E o botão segurava a gola, para o vento não entrar pelo pescoço.
Mirko ergueu o botão até a lâmpada e olhou pelos furinhos. A luz brilhou neles como quatro estrelinhas.
— E depois?
— Depois o casaco se gastou. E o botão eu guardei. Quando a sua mãe era pequena, eu o costurei no vestidinho azul dela. Ela dançou com ele na festinha do jardim de infância. Rodopiava — fruum! — e o botão rodopiava junto.
— E a lasca, de onde veio?
A vovó pensou, pensou.
— Não sei — disse ela. — Disso ninguém mais se lembra.
Mirko passou o dedo na lasca. Estava lisinha, como se tivessem acariciado por muito, muito tempo.
— Vovó, e agora, o botão é de quem?
— E agora — a vovó pegou agulha e linha azul —, agora ele é seu.
Costuraram juntos. A vovó costurava, e Mirko segurava o botão com o dedinho e contava:
— Um — no furinho. Dois — de volta. Um — no furinho. Dois — de volta.
De repente a mamãe apareceu na porta.
— Ah! — disse ela. — Meu botão azul!
— Ele estava no casaco do bisavô — explicou Mirko. — E no seu vestido. E da lasca ninguém se lembra.
A mamãe se abaixou, tocou a lasca — e riu.
— Eu me lembro. Fui eu que mordi! Antes da festa do jardim de infância. Tive tanto medo de dançar que botei o botão entre os dentes — nham! — e fiquei parada.
— Você? — a vovó bateu palmas. — E nunca me contou!
— Aí a música começou, e eu já não tinha mais medo — sorriu a mamãe. — Dancei até o fim.
Mirko riu tanto que o botão novo do pijama chegou a pular.
O botão lembrava da neve e do bisavô. Lembrava da mamãe e da música. Mas sobre o Mirko ele ainda não sabia nada.
Mirko o acariciou e ficou pensando: que história será que eu vou dar a ele?
E que coisa na sua família se lembra das suas histórias?





