Rumpelstiltskin
Um moleiro se gabou de que a filha fiava ouro com palha, e agora só uma coisa pode salvá-la: o estranho nome de um homenzinho.
- Um pouco assustador
- Um pouco triste
Era uma vez um moleiro que morava numa aldeia. O moinho dele era velhinho e moía pouca farinha, mas a língua do moleiro moía sem parar. E o que ele mais gostava era de se gabar da filha, Hanna.
Um dia, o próprio rei passou perto do moinho. O moleiro correu para a estrada, curvou-se até o chão e soltou, só para parecer mais importante:
— Majestade! A minha filha sabe fiar ouro com palha!
Hanna, que estava na porta, ficou pálida. Mas palavra que já saiu voando ninguém consegue pegar de volta.
— Que habilidade! — disse o rei, apertando os olhos. — Traga-a amanhã ao palácio. Vamos ver.
Na manhã seguinte, levaram Hanna a um quartinho onde a palha chegava até o teto. Num canto havia uma roca.
— Fie tudo isso em ouro até o amanhecer — ordenou o rei. — Se não, você voltará para casa envergonhada, e o seu pai junto.
A porta se fechou. Clique, a chave girou.
Hanna sentou-se junto à roca e chorou. Ela não sabia fiar ouro! Nem lã comum ela sabia fiar direito.
De repente, nhec, a porta se abriu sozinha. Para dentro do quartinho pulou um homenzinho do tamanho de um cogumelo, com uma longa barba grisalha e um gorro vermelho pontudo.
— Boa noite, moça! Por que está chorando tanto?
— Preciso fiar ouro com esta palha e não sei — soluçou Hanna.
— E o que você me dá se eu fiar por você?
— O meu colar — disse ela, tirando do pescoço as contas vermelhas.
O homenzinho guardou as contas no bolso, sentou-se à roca e lá foi ele: zum-zum-zum! Três voltas da roda, e já havia um carretel cheio de fio de ouro. Mais três, e um segundo carretel. Ao amanhecer, toda a palha tinha virado ouro.
O rei chegou, viu aquilo, e os olhos dele brilharam. Ele mexia nas meadas douradas, acariciava-as, e já ia pensando onde arranjar mais palha. Na noite seguinte, levou Hanna a um depósito ainda maior, também cheio de palha.
De novo Hanna sentou-se e chorou. E de novo, nhec, o homenzinho apareceu.
— E o que você me dá desta vez?
— O anel do meu dedo.
Zum-zum-zum!, zumbiu a roca. Ao amanhecer, o depósito inteiro reluzia.
Na terceira noite, o rei levou Hanna ao maior salão. A palha estava ali em montanhas, até as janelas.
— Se fiar isto também — disse ele —, será minha esposa, a rainha.
E pensou consigo: “Noiva mais rica eu não encontraria mesmo.”
O homenzinho veio pela terceira vez.
— E então, o que você me dá agora?
— Não tenho mais nada — sussurrou Hanna.
— Então prometa-me isto — disse o homenzinho, inclinando a cabeça. — Quando for rainha, você me dará o seu primeiro filho.
“Quem sabe o que vai acontecer um dia”, pensou Hanna. E, de qualquer jeito, ela não tinha escolha. Fez que sim com a cabeça.
Zum-zum-zum! E ao amanhecer o salão inteiro brilhava de ouro, a ponto de ser preciso apertar os olhos.
O rei cumpriu a palavra: houve casamento, e a filha do moleiro virou rainha. No banquete, o moleiro andava todo pomposo, contando a todo mundo que filha esperta tinha. Já Hanna ficava calada. Ela lembrava quem tinha de fato fiado aquele ouro.
Passou-se um ano. A rainha teve um menininho, rosado e redondinho, com covinhas nas bochechas. Hanna ficou tão feliz com ele que esqueceu por completo a antiga promessa.
Até que, numa noite, nhec, o homenzinho de gorro vermelho estava parado no quarto.
— Vim buscar o que é meu — disse ele. — Lembra?
Hanna apertou o filhinho contra o peito.
— Leve o que quiser! Um baú de ouro, cavalos, todas as minhas contas!
— Para que quero ouro? Eu mesmo fio quanto eu quiser — disse o homenzinho, balançando a cabeça. — Algo vivo me é mais caro que todos os tesouros do mundo.
Mas Hanna chorava tão amargamente que o homenzinho hesitou e coçou a barba.
— Está bem — resmungou. — Dou três dias a você. Se adivinhar o meu nome, a criança fica com você.
E sumiu.
A noite toda a rainha foi lembrando todos os nomes que já tinha ouvido. Na noite seguinte o homenzinho veio, e ela começou:
— Será Pedro? João? Martim? Otávio?
— Não! Não! Não! — a cada nome ele batia o pezinho.
No segundo dia, Hanna perguntou a todo mundo por toda parte e juntou os nomes mais esquisitos que ninguém jamais ouviu.
— Será que você se chama Costela-de-Carneiro? Ou Orelha-de-Repolho? Ou Cadarço-Pernalonga?
— Não! Não! E de novo não! — ria o homenzinho. — Só lhe resta um dia!
Naquela mesma noite, o rei voltou da caçada. Sentou-se ao lado da rainha e disse:
— Hoje vi uma maravilha na floresta. Fiquei perdido entre as montanhas e, de repente, vejo debaixo de um rochedo uma casinha, e na frente dela uma fogueirinha. E em volta do fogo, pulando num pé só, um homenzinho engraçado, de gorro vermelho, cantava:
“Hoje eu asso o pão, amanhã faço a cerveja, e o principezinho levo pra minha casa, que beleza! Que sorte ninguém saber que me chamam Rumpelstiltskin, pode crer!”
A rainha quase gritou de alegria. Passou a noite repetindo o nome esquisito para não esquecer: Rumpelstiltskin, Rumpelstiltskin...
Na terceira noite o homenzinho entrou, esfregando as mãos.
— Então, senhora rainha, como me chamo?
— Será Cosme? — perguntou ela.
— Não!
— Será Zeca?
— Não, não!
— Ou será... Rumpelstiltskin?
O homenzinho deu um pulo. A barba dele se eriçou e o gorro escorregou para o lado.
— Quem contou isso a você?! Quem contou isso a você?! — gritou ele.
Bateu o pé, rodopiou, bateu a porta e fugiu. E nunca mais voltou.
O filhinho ficou com a mamãe. E o moleiro, quando ouviu toda essa história, ficou muito tempo calado junto ao seu moinho. E quando os vizinhos perguntavam se era verdade que a filha dele fiava ouro com palha, ele só abanava a mão e moía a farinha em silêncio.





