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Histórias

A cartógrafa das palavras não ditas

Yarina ganha da avó um mapa mágico e navega até a ilha onde estão as palavras que sua família nunca teve coragem de dizer.

  • Um pouco assustador
  • Um pouco triste
Para os pais

A vovó Hanna morava numa casa em cima de um penhasco, bem acima do mar, e desenhava mapas. Não como os do atlas da escola, mas mapas estranhos, com ilhas que nenhum capitão conseguiria encontrar.

Naquele verão, Yarina e a mãe foram passar um mês inteiro com ela. Mamãe e vovó eram muito educadas uma com a outra. Educadas até demais.

— Quer um chá, mãe?

— Obrigada, filha. E você?

— Obrigada, não precisa.

E ficavam quietas. Yarina olhava ora para uma, ora para a outra e pensava: “Elas conversam como se estivessem andando sobre gelo fino”.

Uma noite, a vovó a chamou ao sótão. Lá tinha cheiro de poeira, de hortelã seca e de papel velho. Embaixo de uma janelinha redonda havia uma mesa, e sobre a mesa, um tubo de couro para mapas.

— Meus olhos já não são os mesmos — disse a vovó, ajeitando os óculos. — Não enxergo mais as ilhas menorzinhas. Então, agora, este mapa é seu.

Ela tirou o mapa do tubo e o desenrolou. Chuá, chuá — o papel farfalhou como uma onda chegando na areia.

O mapa era azul, bem azulzinho, e pelo mar inteiro havia ilhas espalhadas. Umas do tamanho de ervilhas, outras do tamanho da palma da mão. Ao lado de cada uma havia alguma coisa escrita em letrinhas miúdas.

— “Obrigado pela sopa” — leu Yarina. — “Que gorro bonito o seu.” “Na verdade, eu não fiquei bravo.” Vovó, o que é isso?

— Palavras não ditas — respondeu a vovó. — Quando alguém quer dizer alguma coisa, mas fica calado, a palavra não some. Ela cai no mar, e dela nasce uma ilha. De palavras pequenas, ilhas pequenas. E das grandes…

Ela apontou para a beirada do mapa. Ali onde o mar ficava bem escuro, mal dava para ver o contorno de uma ilha. Sem nome. Só névoa, desenhada com linhas finas.

— E essa é de quem?

A vovó ficou calada por muito tempo. Depois suspirou:

— Nossa. Da nossa família. A vida inteira eu quis navegar até lá. Mas nunca tive coragem.

— Por quê?

— Porque lá estão as palavras que dá medo de dizer. — A vovó sorriu, mas um sorriso meio triste. — Bom, chega por hoje. Hora de dormir.

Mas Yarina não dormiu. Ela abriu o mapa em cima do cobertor e ficou olhando para ele até a lua espiar dentro do quarto.

E então o mapa começou a brilhar. A tinta se mexeu. Um pontinho perto da bússola inchou, se esticou e — hop! — uma gaivota pequenininha pulou no travesseiro. Azul-escura, como se fosse feita de tinta, com um rabinho em forma de vírgula.

— Finalmente! — disse a gaivota, sacudindo as asinhas. Pinga, pinga — duas gotas azuis caíram no cobertor. — Quarenta anos esperando que alguém olhasse para este mapa à luz da lua. Eu sou a Vírgula. Para onde vamos navegar?

— Eu… para lugar nenhum — disse Yarina, sem jeito.

— Ahã. — A Vírgula inclinou a cabecinha. — Então por que você está com o dedo em cima da névoa?

Yarina olhou. E era verdade: o dedo dela estava bem em cima da ilha sem nome.

— Eu quero ir para lá — disse ela baixinho. E ficou surpresa com a facilidade com que aquilo saiu.

— Então faça um barquinho — mandou a Vírgula. — Com a beirada do mapa. Mas com cuidado, para não arrancar o “desculpa” de ninguém.

Yarina dobrou a beirada de baixo, onde só havia mar e nenhuma ilha, e fez um barquinho de papel, do jeito que o papai tinha ensinado uma vez. Assim que ela dobrou a última pontinha, o barquinho tremeu, cresceu — e o quarto sumiu. Embaixo dos pés dela a água marulhava, em cima da cabeça brilhavam as estrelas, e o vento tinha cheiro de sal e de tinta.

As primeiras ilhas apareceram bem depressa. Eram tantas que o barquinho mal conseguia passar entre elas. Pequenas, redondas, cobertas de graminha, e cada uma piava baixinho.

— Obrigado! — piava uma.

— Obrigado, obrigado! — repetia outra.

— Estava uma delícia! — gritava uma terceira, pequetitinha.

— O Arquipélago do Obrigado — explicou a Vírgula, acomodando-se na proa. — O maior do mapa. As pessoas vivem esquecendo de agradecer. Não é por maldade. É que estão sempre com pressa.

Yarina se inclinou para uma ilhota. Nela estava escrito: “Obrigada por costurar o meu ursinho”.

— Mas essa sou eu! — exclamou ela. — Eu queria dizer para a mamãe, mas saí correndo para brincar…

A ilhota piou e ficou um pouquinho mais apagada, como se estivesse esperando.

— Diga em voz alta — aconselhou a Vírgula. — Aqui também vale.

— Obrigada, mamãe, por costurar o meu ursinho — disse Yarina.

Glub! — a ilhota mergulhou na água. No lugar dela ficaram só bolhinhas, parecidas com uma risada.

— É assim que se faz — disse a Vírgula, satisfeita.

Mais adiante, o mar foi ficando escuro. As ilhas apareciam menos, mas eram maiores. Numa cresciam arbustos espinhudos, e deles vinha um resmungo: “A culpa não é minha, foi ele que começou”. Em outra se erguia uma rocha com os dizeres: “Eu também quero que você brinque comigo”.

— Aqui as palavras são mais pesadas — disse a Vírgula. — As pessoas carregam elas dentro de si por mais tempo.

E então chegou a névoa. Branca, macia como algodão. Ela chegou de mansinho, envolveu o barquinho, e de repente Yarina ficou com um sono enorme.

— Depois — sussurrava a névoa. — Depois você chega lá. Depois você diz. Amanhã. Algum dia. Para que a pressa?

— É mesmo — bocejou Yarina. — Para que a pressa?

Ela se sentou no fundo do barquinho, e a cabeça foi se encostando sozinha na borda.

— Yarina! — A Vírgula puxou a trança dela. — Não escute! Essa é a Névoa do Depois, a mais traiçoeira de todo o mar. Quanta gente já cochilou dentro dela e nunca disse nada!

— Ah, tanto faz — murmurou Yarina. — Depois…

E foi aí que ela se lembrou da vovó. De quando ela disse: “A vida inteira eu quis. Mas nunca tive coragem”. Uma vida inteira de depois. Yarina sentiu frio, e o sono passou na mesma hora.

Ela se levantou no barquinho, encheu o peito de ar e gritou para dentro do algodão branco:

— Depois, não! Agora!

A voz soou clara como um sininho. A névoa estremeceu. Ondulou. E — pfff! — se desfez em farrapos, como quando alguém sopra um dente-de-leão.

Lá na frente havia uma ilha. Pequena, com uma praia de areia rasinha e um salgueiro velho no meio. Na areia, branquinhas como pedrinhas, estavam espalhadas várias conchas.

— Chegamos — disse a Vírgula baixinho. — Esta é a de vocês.

Yarina pisou na praia. A areia estava morna, mesmo sendo noite em volta. Ela pegou a primeira concha e encostou no ouvido, como todo mundo faz na praia.

Mas, em vez do barulho das ondas, ouviu a voz da mãe. Mais jovem do que agora, e emocionada:

“Mãe, me desculpe por ter ido embora daquele jeito, sem me despedir direito. Sinto tanto a sua falta. Toda vez que escrevo uma carta para você, quero escrever isso — e não escrevo.”

Yarina pôs a concha de volta com cuidado e pegou a segunda. Agora quem falava era a vovó, com a voz rouquinha e carinhosa:

“Filha, naquela época eu não estava brava com você. Eu tive medo de ficar sozinha. Tenho orgulho de você. Sempre tive. Por que nunca disse isso?”

A terceira concha falava com a voz do papai: “Yarininha, sinto tanto a sua falta quando estou embarcado. Seus desenhos estão pendurados em cima do meu beliche, na cabine, todos, sem faltar nenhum”.

E a quarta falava com a voz dela mesma. Yarina nem reconheceu de cara.

“Vovó, não fique velhinha, por favor. Tenho medo de que um dia eu venha e você…”

Depois a concha se calou. Yarina apertou a concha contra o peito. Os olhos arderam.

— Eu nem sabia que também tinha uma palavra aqui — sussurrou ela.

— Todo mundo tem. — A Vírgula pousou no ombro dela. Tinha cheiro de tinta e um pouquinho de mar. — Até os menores.

— Posso levar comigo? — perguntou Yarina.

— Levar, pode — respondeu a Vírgula. — Mas dizer por alguém, não. Cada um tem que dizer a sua palavra sozinho. Só que a concha vai lembrar. Às vezes é só disso que as pessoas precisam: que alguém lembre.

Yarina guardou as conchas nos bolsos do casaquinho. Eram quatro, e os bolsos ficaram pesados, como se estivessem cheios de pedrinhas. Ela entrou no barquinho, e a Vírgula saiu voando sobre a água para mostrar o caminho. Dessa vez não tinha névoa. As ilhotas do Obrigado piavam enquanto elas passavam, e as estrelas iam ficando cada vez mais pálidas…

Yarina acordou na própria cama. O mapa estava ao lado dela, enrolado. Nem sinal da Vírgula. Na certa estava sentada perto da bússola, fingindo ser uma mancha de tinta qualquer.

“Foi um sonho”, pensou Yarina. E enfiou a mão no bolso.

As conchas estavam lá.

Na cozinha, a mamãe fazia panquecas. A vovó estava sentada perto da janela com uma xícara. As duas estavam caladas.

Yarina colocou uma concha ao lado do prato da mamãe. A segunda, ao lado da xícara da vovó. A terceira, guardou num envelope para o papai. E a quarta ficou com ela.

— O que é isso? — estranhou a mamãe.

— Encosta no ouvido — pediu Yarina. — Por favor.

A mamãe deu de ombros, sorriu e encostou. A vovó fez a mesma coisa. Yarina prendeu a respiração.

O rosto da mamãe mudou. Ela abaixou a concha e olhou para a vovó. A vovó olhou para ela. Os lábios das duas tremiam.

— Mãe… — começou a mamãe.

— Filha… — disse a vovó ao mesmo tempo.

E as duas caíram na risada. Um pouco entre lágrimas, mas riram. E depois a mamãe disse tudo: como tinha ido embora, como tinha sentido saudade. E a vovó falou do seu medo e de como sentia orgulho. As palavras saíam desajeitadas, se enroscavam, tropeçavam umas nas outras, e ninguém corrigia.

Enquanto isso, a panqueca na frigideira queimou. Ninguém percebeu.

Yarina apertou a sua concha na mão. Foi até a vovó e abraçou os ombros dela — magrinhos e leves como os de um passarinho.

— Vovó — disse ela. — Não fique velhinha, por favor.

A vovó cobriu a mão dela com a sua.

— Ah, meu solzinho — disse baixinho. — Isso eu não sei fazer. Mas eu estou aqui. E enquanto eu estiver aqui, a gente vai dizer tudo uma para a outra. Combinado?

— Combinado — sussurrou Yarina.

O dia inteiro a mamãe e a vovó conversaram. Não educadamente. Não com cuidado. Simplesmente conversaram — e riram, e conversaram de novo. E à noite as três abriram o mapa na mesa da cozinha. Onde ontem escurecia a ilha sem nome, agora marulhava um mar azul e limpo. Só bem na beiradinha, olhando com atenção, dava para ver uma ilhota minúscula: “Yarininha, sinto tanto a sua falta”.

— O papai ainda não recebeu a carta — sorriu a mamãe.

— Não tem problema — disse a vovó. — Vai chegar.

E perto da bússola uma mancha azul parecia, de um jeito muito suspeito, uma gaivota com um rabinho igualzinho a uma vírgula. Yarina até achou que ela piscou.

De repente, no mar azul e limpo, não muito longe de onde ontem estava a névoa, apareceu um pontinho. Menor que uma semente de papoula. Ele escureceu, inchou — e virou uma ilhota. Ao lado dela começaram a aparecer letras, pálidas e borradas, como se alguém as tivesse escrito na chuva.

— Ah — disse a mamãe.

— Uma nova — disse a vovó baixinho. — Alguém acabou de ficar calado. E então, cartógrafa, de quem é?

Yarina se debruçou tanto sobre o mapa que encostou o nariz no papel. Mas não conseguiu ler: as letras ainda não tinham virado palavras.

A mamãe olhou para a vovó. A vovó olhou para a mamãe. E então as duas ficaram quietas, pensativas, cada uma com seus pensamentos. Yarina também começou a repassar o seu dia, de manhã até a noite: o que ela tinha querido dizer hoje — e não disse?

As letras na ilhota iam aparecendo devagar, risquinho por risquinho. Ainda dava tempo.

Gostou da história?

Uma história original escrita para este site.

Para os pais

Sobre o que é a história

Yarina ganha da avó um mapa mágico em que cada ilha é uma palavra que alguém nunca disse. Com a Vírgula, uma gaivota de tinta, ela navega até a ilha coberta de névoa da família. As crianças adoram a aventura e o jeito sincero com que a história fala de sentimentos.

O que ensina

  • Família
  • Coragem
  • Honestidade

Perguntas para conversar com a criança

  • Por que a Névoa do Depois era o lugar mais traiçoeiro de todo o mar, e como Yarina conseguiu vencê-la?
  • Na sua opinião, por que era tão difícil para a mamãe e a vovó dizerem suas palavras uma para a outra?
  • De quem você acha que era a ilhota que apareceu no mapa no final? E que palavra poderia aparecer no seu mapa?

Em casa

Desenhem juntos um “mapa das palavras não ditas”: cada um escreve numa ilhota um “obrigado” ou um “desculpa” que quer dizer há tempos. Depois, digam essas palavras em voz alta.

Uma frase para lembrar

“Cada um tem que dizer a sua palavra sozinho.”

Esta história em outros idiomas

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