Urashima Taro e a caixinha da Princesa do Mar
O pescador Urashima salva uma tartaruga e visita um palácio no fundo do mar, mas em casa o esperam um segredo do tempo e uma caixinha proibida.
- Um pouco assustador
- Triste
Há muito, muito tempo, no Japão, numa aldeia de pescadores à beira-mar, vivia um rapaz chamado Urashima Taro. Toda manhã ele saía de barco para pescar, e toda tarde voltava para os velhos pai e mãe, e na aldeia diziam que de um cabo ao outro não se achava rapaz mais bondoso.
Uma tarde, Urashima caminhava pela praia com a vara de pescar no ombro. De repente viu um bando de meninos juntos em volta de alguma coisa na areia, gritando e cutucando com paus.
— Vira ela de novo! Deixa ela balançar as patas!
Urashima chegou mais perto. De barriga para cima estava uma tartaruga, grande, marinha, com o casco verde-amarronzado como uma pedra molhada. Ela remava no ar com as nadadeiras e não conseguia se virar.
— Ei, meninos — disse Urashima. — Soltem ela. Está machucando a coitada.
— E o que você tem com isso? — resmungou o mais velho. — Nós a pegamos, ela é nossa.
Urashima pensou. Dar bronca neles? Não iam ouvir, só ficariam mais teimosos. Então tirou do ombro o cesto, onde brilhavam peixes fresquinhos, toda a pesca do dia.
— Vamos trocar. Os peixes são de vocês, a tartaruga é minha.
Os meninos se entreolharam, agarraram o cesto e saíram em disparada, só se viam os calcanhares.
Urashima virou a tartaruga com cuidado e fez um carinho no casco dela.
— Dizem que as tartarugas vivem mil anos — disse ele. — Seria uma pena se os seus acabassem hoje. Nade para casa e não caia mais nas mãos das crianças.
A tartaruga olhou para ele com olhos escuros, surpreendentemente espertos. Depois, chuá, chuá pela areia, e sumiu nas ondas.
Em casa, a mãe perguntou onde estavam os peixes. Urashima riu:
— Hoje o mar não me deu nada. Em troca, eu devolvi uma coisa a ele.
O pai, que justamente consertava uma rede perto da porta, só balançou a cabeça:
— Com bom coração não se pesca, meu filho.
— Pode ser — respondeu Urashima, sentando-se ao lado dele para ajudar. — Mas eu não lamento por aqueles peixes.
No dia seguinte, Urashima estava no barco, longe da costa. O sol esquentava, a boia dormia sobre a água, e o rapaz já cochilava quando ouviu:
— Urashima! Urashima Taro!
Ele deu um pulo tão grande que o barco balançou. Em volta, só água. Quem o chamava? Foi então que, ao lado do barco, surgiu uma cabeça conhecida.
— É você? — espantou-se Urashima. — A mesma tartaruga?
— A mesma — assentiu ela. — Ontem você me salvou. Vim agradecer.
— Você sabe falar?
— No mar muita gente sabe falar — respondeu a tartaruga. — É que em terra quase ninguém escuta. Diga, Urashima, você já viu o Palácio do Rei do Mar?
Urashima balançou a cabeça. Daquele palácio a avó já lhe tinha falado: lá no fundo, bem no fundo, onde não existe tempestade nem vento, ele se ergue, e nenhum ser humano consegue chegar até lá.
— Suba nas minhas costas — disse a tartaruga. — Eu levo você.
— Para o fundo? Mas eu não sou peixe. Não sei respirar debaixo d’água.
— Comigo você sabe. Segure firme.
Urashima sentou-se no casco largo, e mergulharam. O rapaz prendeu a respiração o quanto pôde, depois inspirou com cuidado… e percebeu que respirava com a mesma facilidade de quando estava na praia.
Cardumes de peixinhos prateados passavam voando, brilho, brilho! As águas-vivas balançavam como lanternas transparentes. A luz lá de cima ia ficando cada vez mais verde, depois azul, e depois de um azul bem escuro, como o céu do entardecer.
Uma vez, uma sombra gigantesca passou lá embaixo. Urashima se agarrou ao casco.
— Não tenha medo — disse a tartaruga. — É uma baleia. Ela só está curiosa para saber quem eu estou levando.
A baleia virou-se devagar, olhou para Urashima com um olho enorme, soprou um monte de bolhas, blub!, e seguiu em frente. E a água atrás dela ainda balançou por muito tempo, como um berço.
Nadaram por muito tempo. De repente, ao longe, começou a brilhar algo rosa e dourado. Era um portão de coral, e atrás dele se erguiam os telhados de um palácio, incrustados de madrepérola, cada um curvo como uma onda.
Junto ao portão montavam guarda peixes-espada de focinhos longos e afiados, polvos solenes e caranguejos que estalavam as pinças, clac-clac!, em sinal de saudação.
— Chegou o convidado que salvou a tartaruga! — anunciou a tartaruga.
O portão se abriu. Pela larga escadaria desceu ao encontro deles uma moça tão linda que Urashima esqueceu todas as palavras. Seus longos cabelos pretos brilhavam como se tivessem acabado de sair de uma onda, ramos brancos de coral reluziam entre eles, e o vestido de seda cintilava em verde e rosa, como o mar ao amanhecer.
— Seja bem-vindo, Urashima Taro — disse ela. — Eu sou Otohime, filha do Rei do Mar. Você teve pena da minha tartaruga quando ninguém estava vendo e ninguém ia elogiá-lo. Há muito tempo eu esperava um convidado assim.
Urashima fez uma reverência profunda e, quando levantou a cabeça, ela estava sorrindo.
No palácio houve um banquete. Os peixes serviam os pratos aos convidados em travessas de conchas, os cavalos-marinhos tocavam flautinhas minúsculas, e as águas-vivas brilhavam tão suavemente que ninguém se lembrava das velas. Depois, no meio do salão, começaram a rodopiar peixinhos, vermelhos, amarelos, listrados, e as caudas deles ondulavam como fitas de seda. Urashima olhava sem acreditar que não era um sonho.
No fim do banquete, Otohime perguntou:
— Urashima, você não quer ficar aqui? Não como convidado, mas como meu marido?
Urashima ficou vermelho até as orelhas, mas respondeu na hora:
— Quero.
Naquela mesma noite, no Palácio do Rei do Mar, celebrou-se o casamento, e o mar inteiro zumbiu de música até de manhã.
No dia seguinte, a princesa levou Urashima para conhecer o palácio.
— Aqui há quatro janelas — disse ela. — Janelas assim não existem em lugar nenhum da terra.
Ela deslizou o primeiro biombo, o do leste, e Urashima viu a primavera. As cerejeiras floriam, pétalas rosadas voavam ao vento, os pássaros cantavam entre os galhos.
Atrás do segundo biombo, o do sul, era verão: folhas verdinhas, um meio-dia quente e cigarras, tzim-tzim-tzim, tão alto que fazia cócegas nos ouvidos.
Atrás do terceiro, o do oeste, ardia o outono. Os bordos estavam vermelhos como fogo, e as folhas caíam devagar, como se alguém as balançasse no ar.
E atrás do quarto, o do norte, estava o inverno. A neve cobria macia os pinheiros, e havia tanto silêncio que Urashima ouvia cada floco cair.
— Como as estações mudam depressa aqui — sussurrou ele. — Agora há pouco era primavera, e já é inverno.
— Por aqui tudo é um pouco diferente — respondeu Otohime, e, não se sabe por quê, desviou o olhar.
Os dias no palácio passavam um atrás do outro, leves como peixinhos. Urashima passeava com a princesa pelos jardins de coral, ouvia as canções dos cavalos-marinhos e aprendia os nomes de peixes que nunca tinha visto. Otohime ensinava a ele a entender a língua das ondas: curtas e seguidas, tempestade; longas e preguiçosas, tempo calmo. E a tartaruga o levava para passear sobre as florestas de coral, e ele ria ali mais do que em toda a vida na praia. Parecia-lhe que estava ali havia só alguns dias.
Mas uma manhã ele acordou e se lembrou da mãe. De como ela fica na soleira da porta, olhando o mar. Lembrou-se do pai, consertando as redes. Eles não sabiam onde ele estava! Talvez ainda esperassem, talvez todo fim de tarde procurassem o barco no mar…
Desde então, Urashima ficou triste. Andava pelos mesmos jardins, mas já não via as flores.
— O que você tem? — perguntou Otohime.
— Meus pais — disse ele baixinho. — Eu fui embora sem me despedir. Deixe-me voltar para casa, só por um tempinho, apenas para que saibam que estou vivo. E depois eu volto para cá.
A princesa ficou muito tempo em silêncio. Depois suspirou:
— Não posso prender você. Vá.
Ela trouxe uma caixinha, preta e laqueada, com ondas douradas na tampa, amarrada com um cordão vermelho de seda.
— Leve com você. Esta caixinha guarda uma coisa muito preciosa para você. Enquanto estiver fechada, o caminho de volta até mim continuará aberto. Mas prometa: nunca, está ouvindo?, nunca a abra.
— Prometo — disse Urashima, e apertou a caixinha contra o peito.
A mesma tartaruga o levou até a superfície e o conduziu à sua praia natal. Pelo caminho, Urashima não se calou nem por um instante.
— A mamãe vai me dar bronca primeiro — dizia, rindo. — Depois vai me dar arroz e chorar. E o papai vai fingir que nem ficou preocupado. Eu conto tudo para eles, o palácio e as quatro janelas!
A tartaruga ficou calada. E nadava, não se sabe por quê, muito devagar, como se não quisesse chegar.
— Adeus, Urashima — disse ela perto da praia, e mergulhou.
Urashima pisou na areia e olhou em volta. A praia parecia a mesma: as mesmas pedras, o mesmo mar. Mas os pinheiros acima da praia eram mais altos do que ele lembrava, e a trilha para a aldeia seguia por outro lado. As casas eram desconhecidas. As pessoas andavam com roupas estranhas e olhavam para ele como para um forasteiro.
Perto do poço, uma mulher tirava água. Urashima a cumprimentou, disse seu nome, falou do pai e da mãe. A mulher apenas deu de ombros: nunca ouvira falar deles. Duas crianças se esconderam atrás dela e espiavam de boca aberta.
Ele chegou ao lugar onde devia estar a casa deles. Ali sussurrava o capim. Só capim, e uma pedra velha coberta de musgo.
Passava um velhinho com um feixe de gravetos.
— Vovô — correu Urashima até ele —, diga, onde mora a família de Urashima Taro?
O velhinho apertou os olhos.
— Urashima Taro? — repetiu. — Esse nome eu já ouvi. Meu avô me falava dele, e a ele o avô dele. Dizem que, uns trezentos anos atrás, um rapaz da nossa aldeia saiu para pescar no mar e nunca mais voltou. Os pais esperaram muito tempo por ele. E depois eles também se foram… Faz muito tempo isso, meu filho. Muito tempo mesmo.
E o velhinho seguiu mancando.
Urashima ficou ali sem conseguir se mexer. Trezentos anos! E ele achava que no palácio tinham passado só alguns dias. Por isso as estações mudavam tão depressa atrás das quatro janelas. Por isso a princesa desviava o olhar.
Dos seus não restava mais ninguém. Ninguém que reconhecesse o seu rosto.
Voltou devagar para a praia e sentou-se na areia. O mar rumorejava como sempre: chhhuf, e recuava, chhhuf, e voltava de novo. Urashima olhava a caixinha em suas mãos.
Estava sozinho no mundo inteiro. Ali ninguém o conhecia. E lá embaixo, debaixo da água, tinha ficado Otohime, e ele nem sabia como chegar até ela: por mais que chamasse, a tartaruga não voltava.
“E se lá dentro estiver o caminho de volta?”, pensou. “Ou pelo menos alguma resposta?”
Naquele instante, ele não se lembrou da promessa. Os dedos puxaram sozinhos o cordão vermelho. A tampa fez um clique suave.
Da caixinha saiu uma fumaça, violeta e leve como a névoa do mar ao amanhecer. Ela envolveu Urashima, tocou seu rosto, seus cabelos, suas mãos e foi se afastando devagar sobre a água, para onde, além do horizonte, se escondia o palácio.
E Urashima de repente sentiu como ficara pesado permanecer sentado. Olhou para as mãos: estavam enrugadas e magras. Tocou os cabelos: tinham ficado brancos como a neve da quarta janela. Uma longa barba grisalha caiu sobre o seu peito.
A caixinha estava vazia. Agora Urashima entendia o que ela guardava: os anos dele. Trezentos anos que tinham passado voando ao seu lado enquanto ele ouvia os cavalos-marinhos e admirava as cerejeiras em flor.
Não havia mais caminho de volta.
O velhíssimo Urashima Taro estava sentado na praia, olhando o mar. As ondas chegavam até os seus pés e recuavam, e no murmúrio delas ele julgava ouvir flautas, e o riso da princesa, e o suave tzim-tzim-tzim das cigarras do verão. Lembrou-se da tartaruga na areia, de toda a sua pesca em mãos alheias, e sorriu.
A caixinha estava vazia. Mas tudo o que ele tinha visto e amado ficou com ele, e nenhuma fumaça podia levar isso embora.





