O Ratinho Perez
O pequeno rei Bubi sai à noite com o Ratinho Perez para visitar um menino pobre, Gilito, e descobre o que significa ser rei.
- Um pouco assustador
- Um pouco triste
- Um pouco perigoso
Há muito tempo, na Espanha, vivia um pequeno rei chamado Bubi. Ele se tornou rei com apenas seis anos, por isso quem o ajudava a governar era a mãe, a rainha, sábia e carinhosa. E Bubi era corajoso. O palácio inteiro sabia disso.
Um dia, durante o almoço, ele tomava sua sopa quando, de repente, tá-tá-tá, um dente começou a balançar na boca.
Vieram correndo os médicos reais, com suas longas becas pretas. Um aconselhava esperar, outro bochechar com ervas, o terceiro chamar mais três médicos. Discutiam tanto que as perucas pulavam.
— Não precisam discutir — disse Bubi. — Amarrem um fio e pronto. Eu não tenho medo.
Amarraram no dente um fio de seda vermelho. O médico mais velho puxou de leve, zás! Bubi só fez uma carinha de nada, e o dente já estava na palma da sua mão, branco e limpo como uma pérola minúscula.
Os ministros logo começaram a se agitar.
— Vamos engastá-lo em ouro! — dizia um.
— Vamos guardá-lo no tesouro real! — dizia outro.
Mas a rainha balançou a cabeça:
— Não. Vamos fazer como todas as crianças do mundo. Bubi vai escrever uma carta para o Ratinho Perez e colocá-la debaixo do travesseiro junto com o dente.
Escrever a carta não foi fácil. Quando Bubi terminou a última letra, tinha tinta nos dez dedos, na ponta do nariz, na orelha esquerda e na gola de renda.
Naquela noite o rei foi dormir mais cedo que nunca e mandou não apagar nenhuma vela. Guardou com cuidado a carta e o dente debaixo do travesseiro, sentou na cama e se preparou para esperar até de manhã, se preciso. Até inventou um belo discurso para o visitante.
Mas Perez não vinha. Os olhinhos de Bubi foram se fechando, a cabecinha foi pendendo, até pousar sozinha no travesseiro.
De repente, algo macio tocou sua testa. Bubi deu um pulo e viu no travesseiro um ratinho. Pequenininho, de chapéu de palha, óculos de ouro e sapatinhos vermelhos, com uma bolsinha a tiracolo.
O ratinho tirou o chapéu, fez uma reverência bem profunda, como manda a corte real, e esperou o que o rei diria. Mas Bubi, de tanto espanto, esqueceu o discurso por completo. Pensou, pensou, e só conseguiu dizer:
— Boa noite...
— E boa noite para Vossa Majestade — respondeu Perez, comovido.
E foi assim que os dois ficaram amigos.
Perez contava como viajava pelos canos e porões da cidade inteira. Bubi escutava de boca aberta e, toda hora, estendia a mão para pegá-lo pelo rabinho. Mas Perez, educado, passava o rabinho para o outro lado, e pronto.
Por fim, Perez pigarreou:
— Perdoe-me, Majestade, preciso ir. Esta noite tenho que buscar o dente de mais um menino. Ele se chama Gilito e é muito pobre. O caminho até lá não é fácil: ao lado mora o gato dom Gaiferos.
— Leve-me com você! — Bubi levantou num salto. — Por favor!
Perez alisou os bigodes, pensativo. Levar um rei à noite por esses caminhos não era brincadeira.
— Antes preciso passar em casa para pegar um presente para o Gilito — disse ele.
— Então vou com prazer visitar vocês — respondeu Bubi.
Perez se iluminou: não é todo dia que um rei vem visitar!
Bubi pulou da cama e esticou a mão para a camisola. Mas Perez, pluft, pulou no ombro dele e fez cócegas no seu nariz com a pontinha do rabo.
— A... a... atchim!
Bubi espirrou tão forte que os castiçais tilintaram. E virou um ratinho! E não um qualquer: seu pelo brilhava como ouro, era macio como seda, e os olhinhos reluziam verdes como duas esmeraldas.
Perez o pegou pela patinha e, zupt, entraram numa toca debaixo da cama, escondida sob o tapete.
Correram por canos escuros, úmidos e pegajosos. De vez em quando Perez parava numa encruzilhada e farejava para saber se dava para seguir. Bubi tremia do focinho à ponta do rabo. Mas lembrou do que lhe tinham ensinado: ter medo não é vergonha, corajoso é quem vence o medo. E correu em frente.
Só uma vez, quando algo retumbou acima das cabeças, como se dez carruagens pesadas passassem, ele perguntou baixinho:
— É aqui que mora dom Gaiferos?
Perez balançou o rabo: não.
Por fim, chegaram a um porão quentinho que cheirava a queijo. Era o porão de uma mercearia da rua Arenal. Atrás de uma alta montanha de queijos havia uma grande lata de biscoitos. Ali morava a família Perez.
— Nosso hóspede, um viajante de terras distantes — apresentou Perez o rei, e ninguém desconfiou de nada.
A senhora Perez estava sentada junto a uma lareira minúscula, onde os cabinhos de uva-passa estalavam alegres, e bordava um gorrinho para o marido. As filhas, Adelaida e Elvira, serviram chá ao hóspede em xicrinhas de casca de feijão e depois cantaram: Adelaida com doçura e tristeza, Elvira com voz clara e animada. Bubi ficou sentado, ouvindo, e pensou que numa casa tão aconchegante ninguém jamais passava frio.
Nesse meio-tempo, Perez voltou com a bolsa cheia até a boca.
— Está na hora, querido hóspede.
A senhora Perez deu um beijo em cada bochecha de Bubi na despedida, e as filhas acenaram com as patinhas.
Agora eles não iam mais sozinhos. À frente marchava uma tropa de ratos soldados, e cada um levava, no lugar de baioneta, uma agulha fininha. As agulhas cintilavam no escuro. Atrás vinha trotando outra tropa.
— Não posso levar um rei sem guarda — explicou Perez num sussurro.
De repente, os soldados da frente sumiram, um após o outro, numa fresta por onde vinha uma luz fraca. Perez botou o focinho para fora, olhou, recuou, botou de novo... E então pegou Bubi pela patinha e, zás! atravessou a cozinha inteira.
Bubi viu tudo como pela janelinha de uma carruagem em disparada. Junto ao fogão quente dormia dom Gaiferos, um gatão cinzento enorme. Seus bigodes subiam e desciam: inspira, expira, inspira, expira. E os ratos soldados estavam em volta, sem respirar, de agulhas em riste.
Mais um instante, e Bubi e Perez mergulharam numa toca atrás do fogão. Dom Gaiferos nem mexeu um bigode.
De lá já não era longe até o sótão. Os ratinhos passaram pelas frestas, e Bubi subiu pela perna de uma cadeira, a única do cômodo, e ainda por cima sem assento.
Ali fazia frio, muito frio. Pelas frestas soprava um vento gelado, e debaixo do telhado pendiam pingentes de gelo. O teto era tão baixo que um adulto não conseguiria ficar de pé. De uma viga pendia, numa corda, um cesto de pão, vazio. E no canto, sobre palha e trapos velhos, dormiam abraçados um menino e a mãe. Gilito se encolhia junto a ela para se aquecer um pouquinho, e sob os trapos apareciam suas mãozinhas geladas.
Bubi olhou, olhou, e chorou.
— Eu não sabia... — soluçava. — Eu não sabia que criança podia passar fome e frio! Não quero cobertores quentes enquanto no meu reino houver uma só criança com frio!
Perez enxugou escondido uma lágrima com a patinha. Depois chegou de mansinho a Gilito, pegou o dente dele e escorregou, por baixo do embrulho que servia de travesseiro ao menino, uma moeda de ouro, brilhante como o sol.
Nesse meio-tempo amanhecia. A mãe de Gilito acordou: precisava ir ao rio lavar roupa dos outros para ganhar o pão. Ela levantou o filho sonolento e o pôs de joelhos diante de uma pequena imagem na parede, e Gilito juntou as mãozinhas. Bubi e Perez também se ajoelharam, e os soldados, ali mesmo, dentro do cesto vazio.
E Gilito sussurrou uma oração. A mesma oração que Bubi reza toda noite.
Bubi olhou para Perez, espantado. Perez não disse nada, só o observou com atenção através dos óculos de ouro.
Voltaram para casa em silêncio. No quarto real, Perez fez cócegas em Bubi de novo com o rabinho.
— Atchim!
E Bubi acordou na sua cama, nos braços da mãe. Ela o beijava, como toda manhã.
Será que foi um sonho? Bubi olhou debaixo do travesseiro. A carta não estava lá. Em seu lugar havia uma caixinha com uma condecoração que faiscava de diamantes. Bubi mal olhou para ela e a deixou de lado.
— Mamãe — perguntou ele, sério —, por que as crianças pobres rezam do mesmo jeito que eu?
— Porque Deus é o Pai delas, assim como é o seu — respondeu a mãe.
— Então nós somos... irmãos?
— Somos, meu filho. Elas são seus irmãos.
Os olhos de Bubi se encheram de lágrimas.
— Mas por que eu sou rei e tenho tudo, e elas não têm nada?
A mãe o apertou contra o coração e beijou sua testa.
— Porque você é o irmão mais velho, Bubi. Ser rei é justamente ser o irmão mais velho. Tudo lhe foi dado para que você cuide de que nada falte aos seus irmãos mais novos.





