Branca de Neve
Uma madrasta invejosa tenta três vezes se livrar de Branca de Neve, mas os anões bondosos e um golpe de sorte salvam a menina.
- Um pouco assustador
- Um pouco triste
- Perigoso
Certo inverno, quando a neve caía em grandes flocos fofos, a rainha estava sentada junto a uma janela de moldura de ébano, bordando. A agulha espetou seu dedo, e três gotas vermelhas caíram sobre a neve branca do parapeito.
— Se eu tivesse uma filhinha — sussurrou a rainha —, branca como a neve, corada como estas gotas e com uma trança escura como esta moldura.
Pouco depois nasceu uma menina: rostinho branco, bochechas vermelhas, cabelinho escuro. Deram a ela o nome de Branca de Neve. Mas a mãe não aproveitou a filha por muito tempo: apagou-se em silêncio assim que a pequena veio ao mundo.
Passou-se um ano, e o rei tomou uma nova esposa. Era bela, mas orgulhosa e invejosa: não suportava que alguém fosse mais bonita do que ela. A rainha tinha um espelho mágico e todas as manhãs lhe perguntava:
— Espelho, espelhinho meu, diga a verdade: quem é a mais bela de todo o reino?
— A senhora, rainha — respondia o espelho, porque não sabia mentir.
Branca de Neve, porém, crescia e ficava mais bonita a cada dia. E não só no rosto: sabia escutar, repartia até o último pedaço e nunca ria da desgraça alheia. E então, numa manhã, o espelho respondeu diferente:
— A senhora é bela, rainha, mas Branca de Neve é mil vezes mais bela.
A rainha ficou verde de inveja. Daí em diante não teve sossego nem de dia nem de noite. Por fim, chamou o caçador:
— Leve a menina para bem longe, no meio da floresta. E que eu nunca mais a veja!
O caçador conduziu Branca de Neve até o mais fundo da mata. Mas, quando parou e olhou para ela, seu coração apertou.
— Fuja, criança — disse ele baixinho. — Corra para longe, bem longe, e não volte ao palácio. A rainha deseja o seu mal.
— E você? — soluçou Branca de Neve.
— Eu direi que você não está mais no reino. Corra!
E ela correu. Os espinhos se prendiam ao vestido bordado, as corujas piavam, os bichos passavam por ela, mas nenhum lhe fez mal. Só ao entardecer, quando as pernas já não aguentavam, uma janelinha cintilou entre as árvores.
Era uma casinha pequenina. Lá dentro tudo era miúdo e arrumado: uma mesa com toalha branca, sete pratinhos, sete colherinhas, sete canequinhas. E junto à parede, sete caminhas enfileiradas.
Branca de Neve estava com muita fome. Mas, para não prejudicar ninguém, pegou de cada pratinho um pouco de mingau e de pão, e de cada canequinha um golinho. Depois experimentou as caminhas: uma era comprida demais, outra curta demais, a terceira rangia… Mas a sétima era do tamanho certo. Deitou-se e adormeceu.
De noite voltaram os donos da casa, sete anões que tinham passado o dia cavando minério nas montanhas. Acenderam sete velinhas e ficaram parados como estátuas.
— Quem sentou no meu banquinho?
— Quem comeu do meu pratinho?
— Quem beliscou o meu pãozinho?
— Quem bebeu da minha canequinha? — gritaram todos ao mesmo tempo.
Então o sétimo anão olhou para a sua caminha e soltou um grito! Todos correram com as velas e ficaram paralisados.
— Meu Deus do céu! — sussurrou o mais velho. — Como ela é linda. Deixem que durma, não vamos acordá-la.
E o sétimo anão passou aquela noite nas camas dos companheiros, uma horinha em cada uma.
De manhã Branca de Neve acordou, viu sete rostos barbudos e se assustou. Mas os anões sorriam com tanta ternura que ela lhes contou tudo.
— Fique com a gente — disseram os anões. — Você será a dona da casa, e não deixaremos ninguém lhe fazer mal. Só tome cuidado: a sua madrasta é esperta e ainda vai descobrir onde você está. Não deixe ninguém entrar!
E assim foi. De dia os anões iam para as montanhas, e Branca de Neve cozinhava, lavava e costurava, e a casinha ficou mais clara do que nunca.
Enquanto isso, a rainha perguntou ao espelho, certa de que ouviria o próprio nome. Mas o espelho respondeu:
— A senhora é bela, rainha, mas, além de sete montanhas, na casa de sete anões, mora Branca de Neve, e ela é mil vezes mais bela.
A rainha tremeu de raiva. O caçador a tinha enganado! Vestiu-se de velha vendedora, atravessou sete montanhas e bateu à casinha.
— Vendo mercadoria boa! Cadarços de todas as cores!
“Uma velhinha dessas pode entrar”, pensou Branca de Neve, e abriu. Escolheu um cadarço para o vestido.
— Venha cá, minha filha, que eu amarro direitinho para você — grasnou a velha.
E apertou tanto que Branca de Neve ficou sem ar e caiu desmaiada. À tarde os anões a encontraram no chão, cortaram depressa o cadarço, e a menina voltou a respirar.
— Era a rainha! — disseram os anões. — Ninguém, está ouvindo?, ninguém pode entrar!
Mas o espelho denunciou Branca de Neve outra vez. Então a rainha enfeitiçou um pente, disfarçou-se de outra velha e voltou.
— Não posso deixar ninguém entrar — disse Branca de Neve pela janela.
— Mas olhar pode, não pode? — e a velha mostrou um pente tão lindo que a menina não resistiu e abriu. Assim que o pente tocou sua trança, pof! Branca de Neve caiu. Ainda bem que os anões voltaram cedo: tiraram o pente, e ela abriu os olhos.
Na terceira vez, a rainha preparou uma maçã. Uma metade era branca e a outra corada, e justamente na corada se escondia o feitiço de um sono pesado. A rainha se vestiu de camponesa e bateu na janela.
— Não posso deixar ninguém entrar — balançou a cabeça Branca de Neve. — Os anões não deixam.
— Nem precisa — riu a camponesa. — Tome esta maçãzinha de presente.
— Não, não me atrevo.
— Tem medo de que esteja envenenada? Olhe: vou cortar ao meio. A metade corada para você, e a branca eu mesma como.
Mordeu a branca. Branca de Neve olhava para a metade corada, e como tinha vontade… Estendeu a mão, deu uma mordida e caiu como se tivesse sido ceifada.
— Agora ninguém vai acordar você! — riu a rainha e correu para casa. Desta vez o espelho disse que a mais bela era ela. E o coração invejoso, enfim, sossegou, até onde um coração invejoso consegue sossegar.
À noite os anões procuraram o cadarço e o pente, tentaram acordá-la, chamaram, em vão. Branca de Neve jazia quieta e morna, as bochechas rosadas, respirando de leve, de leve. Mas não conseguia acordar.
— Não vamos deixá-la no escuro — disse o mais velho. — Que a gente a veja, e que ela veja o céu.
Fizeram um caixão de cristal, escreveram nele com letras de ouro: “Branca de Neve, filha do rei” e o puseram no alto da montanha, entre as flores. Sempre havia um dos anões de guarda ao lado dela. Vieram também as aves: primeiro uma coruja, depois um corvo, depois uma pombinha. Muito, muito tempo Branca de Neve ficou como se dormisse: branca como a neve, corada como as gotas na neve, com uma trança escura como o ébano.
Um dia, um príncipe passou a cavalo pela floresta. Viu o caixão de cristal, leu as letras de ouro e demorou a conseguir desviar os olhos.
— Entreguem-na a mim — pediu aos anões. — Darei a vocês o que quiserem.
— Não a entregaremos nem por todo o ouro do mundo — responderam os anões.
— Então me deem de presente — disse o príncipe baixinho. — Não conseguiria viver sem vê-la. Vou guardá-la como a coisa mais preciosa que tenho.
Os anões se entreolharam e sentiram pena do rapaz. Concordaram.
Os criados do príncipe ergueram o caixão nos ombros e partiram. Mas, no caminho, um deles tropeçou numa raiz, tum! O caixão balançou, e o pedacinho de maçã saltou da garganta de Branca de Neve. Ela abriu os olhos, levantou a tampa de cristal e se sentou.
— Ai, onde estou?
— Você está comigo — disse o príncipe, e a voz dele tremia de alegria.
Ele contou tudo o que sabia, e os anões, o resto. Depois o príncipe perguntou:
— Você vem comigo para o castelo do meu pai? Seja minha esposa.
Branca de Neve olhou para os anões. Eles acenavam com a cabeça, enxugavam os olhos nas barbas e sorriam. E ela disse:
— Vou. Mas os sete têm de estar no casamento.
Para o casamento convidaram também a madrasta. Ela vestiu o traje mais suntuoso e perguntou ao espelho:
— Espelho, espelhinho meu, diga a verdade: quem é a mais bela de todo o reino?
— A senhora é bela, rainha, mas a noiva do jovem príncipe é mil vezes mais bela.
A rainha gritou, atirou o espelho no chão, crash!, e ele se espatifou em cacos. Será que ela foi ao casamento? Não. Agarrou um manto, saiu correndo do palácio e se perdeu pelo mundo. Ninguém nunca mais a viu, e no reino não lhe restou mais nada: nem coroa, nem palácio, nem espelho.
E Branca de Neve viveu feliz com o príncipe. Todo verão ela ia além das sete montanhas até a casinha, e sobre a mesa havia de novo oito pratinhos. A inveja ficou sem casa, e a bondade encontrou casa até na floresta escura.





