Sirko
O fazendeiro mandou embora o velho cão Sirko, e um lobo o ajudou a voltar para casa. Agora Sirko precisa agradecer ao amigo, bem no meio de um casamento.
- Um pouco assustador
- Um pouco triste
- Um pouco perigoso
Era uma vez, numa aldeia, um fazendeiro que tinha um cão chamado Sirko. Sirko serviu por muito tempo: vigiava o quintal, protegia as galinhas da raposa e, à noite, latia tão alto que os ladrões nem chegavam perto. Mas os anos passaram, Sirko ficou grisalho, os dentes se gastaram e as orelhas já não eram as mesmas: ouvia como se fosse através de um travesseiro.
Numa manhã, o fazendeiro saiu na varanda e franziu a testa:
— De que você me serve agora, Sirko? Esta noite alguém andou pelo quintal e você nem latiu. Vá para onde os olhos o levarem. Não preciso de um guarda assim.
Sirko olhou para o fazendeiro e balançou o rabo só um pouquinho: será que ele estava brincando? Não, não estava. O cão baixou a cabeça e se arrastou para fora do portão, e dali para o campo.
Sirko deitou debaixo de um espinheiro, apoiou o focinho nas patas e suspirou. De repente, chiu-chiu no capim, saiu um lobo. Cinzento, magro, de rabo baixo.
— Olá, Sirko — disse o lobo. — Por que você não está em casa, e sim deitado debaixo de um arbusto?
— O meu dono me mandou embora — respondeu Sirko. — Fiquei velho e não sirvo mais para ninguém.
O lobo sentou ao lado dele, coçou atrás da orelha e semicerrou os olhos.
— Ah, Sirko, Sirko. Você nunca me barrou o caminho pelo seu quintal, como os outros cães. Eu não esqueço o bem que me fazem. Escute o que eu pensei. Logo vem a colheita. A sua dona vai ao campo ceifar e deixa o bebezinho debaixo de um monte de feixes, para dormir na sombra. E eu me aproximo de mansinho, pego a trouxinha, com todo o cuidado, como se fosse um ovo, e saio levando. Ela vai gritar, e você corre atrás de mim e late com toda a força. Eu largo a trouxinha na grama e fujo. E você traz o bebê de volta.
— E se você deixar cair? — assustou-se Sirko.
— Não vou deixar — disse o lobo, muito sério. — Vou carregar do jeito que a loba carrega os filhotes. Nem um arranhãozinho. Palavra de lobo honesto.
Sirko pensou, pensou, e acabou concordando.
Chegou a colheita. O campo está dourado, o centeio sussurra, as codornas gritam: «Pit-pi-lit! Pit-pi-lit!». O fazendeiro e a mulher saíram para ceifar. A mulher estendeu um casaco debaixo do monte de feixes, deitou nele o filhinho enrolado num pano branco e pegou a foice: xis-xis, xis-xis.
Enquanto isso, o lobo estava deitado no centeio, quietinho, só as orelhas apareciam. Sirko estava um pouco mais longe e também prendia a respiração.
Aí a mulher se afastou até o fim do campo. O lobo deu um pulo, zás!, até o monte. Pegou a trouxinha com os dentes pela pontinha do casaco, bem de leve, como uma flor, e saiu trotando pelo campo. O pequeno nem acordou, só estalou os lábios.
— Ai, que desgraça! — gritou a mulher. — Um lobo está levando meu filho!
— Socorro! — gritou o fazendeiro e correu atrás, mas como alcançar um lobo?
Então, do meio do centeio, salta Sirko:
— Au! Au, au! Pare, ladrão cinzento!
Sirko corre, as patas se embaraçam, as orelhas balançam, e ele late como se fosse jovem outra vez. O lobo olhou para trás, piscou para ele, pôs com cuidado a trouxinha na grama macia e sumiu num instante.
Sirko chegou, cheirou o pequeno: inteiro, quentinho, bocejando. O cão pegou a trouxinha pelo casaco e a levou de volta, devagar, para não balançar.
A mulher arrancou o filhinho, abraçou-o, chorando e rindo ao mesmo tempo. E o fazendeiro se ajoelhou diante de Sirko e acariciou sua cabeça grisalha.
— Ah, Sirko, Sirko — disse. — E eu mandei você embora. Que tolo eu fui. Vamos para casa.
E foram todos juntos para casa. Em casa, o fazendeiro mandou:
— Mulher, dê a Sirko pão, toucinho e pastéis com nata. Que coma tudo o que couber. Ele agora é o mais querido da nossa casa!
Fizeram para Sirko uma cama de feno macio debaixo do banco e todo dia punham uma tigela cheia. Ninguém mais brigava com ele. Sirko fica deitado ao sol, aquecendo os ossos velhos, e pensa: «Estou bem aqui. Mas como estará o meu lobo?».
E bem nessa época o fazendeiro casava a filha. Prepararam um casamento para a aldeia inteira: mesas na casa e no pátio, pastéis, linguiças, charutinhos de repolho, os músicos tocam, os convidados dançam, e o chão estremece.
À tarde, Sirko foi ao campo e encontrou o lobo debaixo do mesmo espinheiro.
— Venha, amigo, ao meu casamento — disse. — Você me fez um bem, agora é a minha vez.
— Mas lá vão me receber com pauladas! — estremeceu o lobo.
— Você vai quietinho. Entra debaixo da mesa, onde a toalha vai até o chão. Ninguém vai ver.
Ao anoitecer, esgueiraram-se até o pátio. O lobo se enfiou debaixo da mesa, e só o rabo apareceu por um instante. Sirko anda entre os convidados, abanando o rabo, e os convidados contentes:
— Aí está o nosso Sirko, o salvador! Tome, Sirko, um pastelzinho! Tome um pedaço de linguiça!
Sirko pega e vai para debaixo da mesa. Pega e vai para debaixo da mesa. O lobo devora tudo de bochechas cheias: pastéis, charutinhos de repolho e até o osso da gelatina de carne. Comeu tanto que a barriga ficou redonda.
E lobo de barriga cheia sempre sente vontade de cantar. Amolecido debaixo da mesa, fechou os olhos e pensou: «Os músicos tocam, o povo canta, e eu, sou pior?». Levantou o focinho e começou a uivar:
— Uuuuuuu!
Os músicos se calaram. Os convidados congelaram com as colheres nas mãos.
— Lobo! — gritou uma tia de lenço florido. — Tem um lobo debaixo da mesa!
Que confusão! Um pegou o atiçador, outro o porrete, outro a vassoura. Os convidados gritavam, balançavam paus, batiam nos bancos, mas ninguém acertou ninguém.
E Sirko já estava lá. Atirou-se sobre o lobo, rosnando terrivelmente, o lobo foi para cima dele, e os dois rolaram feito uma bola, levantando poeira. Mas, na verdade, nenhum mordeu o outro: Sirko só sussurrava no ouvido do lobo:
— Aguente, amigo, já já eu te tiro daqui.
Então o fazendeiro gritou pela casa toda:
— Não batam! Não toquem nele! Podem acertar o Sirko! Deixem que ele mesmo o expulse!
Os convidados baixaram os paus. E Sirko rosnava, avançava e, como se estivesse enxotando o lobo, levou-o para fora do portão e depois para o campo, até o espinheiro.
Ali sentaram e recuperaram o fôlego. O lobo lambeu os bigodes e riu:
— Que casamento você tem, hein, Sirko! Me alimentou por uma semana inteira. Só que cantar lá eu não canto mais.
— Pois é — riu também Sirko. — Cante melhor aqui no campo, até de manhã, se quiser.
Abraçaram-se como irmãos e se despediram. O lobo foi para a floresta, e Sirko voltou para casa, para a sua tigela quente e o feno macio. E desde então, sempre que ouvia de noite um «uuu» vindo do campo, só mexia a orelha e sorria: era o amigo agradecendo.





