Um farol para a baleia esquecidinha
A filha do faroleiro inventa uma canção de luz para que Glub, um filhote de baleia esquecidinho, ache o caminho de casa até na neblina.
- Um pouco assustador
- Um pouco triste
- Um pouco perigoso
Numa ilhota de pedra no meio do mar, havia um farol branco com listras vermelhas. Nele moravam o faroleiro e a filha dele, Solomíia. Toda noite, o papai acendia uma lâmpada enorme lá no alto, para os navios não se perderem no caminho.
Certa manhã, Solomíia correu até a enseada para catar conchas. De repente, viu umas costas cinzentas saindo da água, lisinhas como uma pedra molhada. A pedra suspirou: "Pff-f-f!" e soltou um esguicho para o alto.
— Ai! — gritou Solomíia. — Quem é você?
Da água surgiu uma cabeça enorme, com uns olhinhos pequenos e bondosos.
— Eu sou o Glub — disse a baleia. — Acho. E você não sabe para onde eu estava nadando?
— Não sei — riu a menina. — Você mesmo não lembra?
Glub franziu a testa. Bom, pelo menos o tanto que uma baleia consegue franzir a testa.
— Eu estava seguindo uns peixinhos. Uns prateadinhos. Eles iam zás pra cá, zás pra lá, e eu atrás. Aí olhei em volta: cadê a mamãe? Cadê o papai? Cadê a vovó? Só ondas.
Ele ainda era uma baleia bem novinha, do tamanho de um barco de pesca. Para uma baleia, isso é só um bebê.
— E onde mora a sua família? — perguntou Solomíia.
— Depois das Três Rochas! — animou-se Glub, porque disso pelo menos ele lembrava. — Lá a água é verdinha e cheia de peixinhos.
Solomíia conhecia as Três Rochas. O papai já tinha mostrado pela luneta: três dedos de pedra saindo do mar, lá onde o sol se põe à tardinha.
— Nade para onde o sol vai dormir — apontou ela com a mão.
— Obrigado! — fez Glub com um glub, bateu a cauda (chuá!) e foi embora nadando.
Na manhã seguinte, Solomíia voltou à enseada. E lá estavam as velhas conhecidas costas cinzentas.
— Ah, oi! — alegrou-se Glub. — Você não sabe para onde eu estava nadando?
— Glub! — A menina levou as mãos à cabeça. — Ontem você foi para casa!
— Fui — concordou a baleia com a cabeça. — Mas aí eu vi uma água-viva. Tão bonita, parecia um guarda-chuva cor-de-rosa. Nadei um pouquinho atrás dela… E depois mais um pouquinho… E cá estou eu.
No terceiro dia, quem o tirou do caminho foi um bando de golfinhos. No quarto, uma nuvem com formato de rosquinha.
— Você é esquecido igual ao nosso gato Ronrom — disse Solomíia. — Toda manhã ele esquece que já tomou café.
— E o seu gato sabe cantar? — perguntou Glub.
— Não. Ele só mia.
— Pois eu sei! — gabou-se a baleia. — Música eu nunca esqueço. A mamãe diz que as minhas orelhas têm mais memória que a minha cabeça.
E ele cantou: "Vu-u-u, vu-u-um". Era uma canção grave e arrastada. A água da enseada chegou a tremer, e as gaivotas nas rochas ficaram quietinhas, escutando.
Solomíia bateu palmas. Depois, de repente, ficou calada e muito, muito pensativa.
— Glub — disse ela devagar. — E se o caminho de casa também virasse uma canção?
À noite, ela pegou a lanterna velha do papai e se sentou numa pedra bem na beira da água. Tapava a lanterna com a mão: escuro. Tirava a mão: luz. Assim: pisca, e pisca-pisca, e um looongo piscaaar.
E, junto com a luz, ela cantava:
— Pisca, e pisca-pisca, e um looongo piscaaar! A luz atrás da cauda, e lá na frente o lar!
— Como assim? — Glub não entendeu.
— Quando você vir a minha canção, vire a cauda para ela e nade sempre reto. Ela vai empurrar você pelas costas até as Três Rochas.
Glub tentou. Virou a cauda para a lanterninha, nadou um pouquinho (plof-plof) e olhou para trás.
— Está dando certo! E se eu virar o nariz para a canção?
— Aí ela traz você de volta, até mim — riu Solomíia. — Mas você precisa ir para casa!
Os dois ensaiaram a canção até as estrelas encherem o céu. Glub acompanhava com sua voz de baleia: "Vu, vu-vu, vu-u-um!" Ficava tão engraçado que Solomíia até caiu da pedra na água rasinha. Ainda bem que estava de galochas.
— Agora, quando esquecer o caminho, procure a minha canção — disse ela. — Vou acendê-la todas as noites.
Glub foi embora. Passou um dia, dois, uma semana. A baleia não apareceu mais. Solomíia ficou um pouco triste e um pouco feliz. Triste, porque sentia saudade. Feliz, porque ele já devia estar em casa.
Até que, certa noite, uma neblina veio rastejando do mar. Grossa, branca como leite numa tigela. Não dava para ver as rochas, nem as ondas, nem mesmo os próprios sapatos. O papai subiu para acender a lâmpada. E então, de dentro da neblina, veio um chamado baixinho e assustado:
— Vu-u-u… Solomíia-a-a…
— Glub! É você?
— Eu fui atrás de uma foca — soluçou a baleia. — E agora está tudo branco. Não sei onde está o sol. Não sei onde estão as Três Rochas. Já nem sei onde está a minha cauda!
Solomíia disparou escada acima. Tum-tum-tum, cem degraus em caracol, até a cabeça girar.
— Papai! O Glub se perdeu na neblina!
O papai olhou pela janela e balançou a cabeça.
— A lâmpada está acesa, filha. Mas numa neblina dessas a luz se espalha como manteiga em pão quentinho. A baleia vai ver uma mancha, mas não vai saber para onde nadar.
— Vai saber, sim! — exclamou Solomíia. — Se a luz cantar a nossa canção!
O papai ficou surpreso, mas não discutiu. Mostrou a ela uma grande alavanca de ferro ao lado da lâmpada.
— Se puxar, a lâmpada se esconde atrás de uma tampa. Se soltar, ela acende de novo. Só segure firme.
Solomíia agarrou a alavanca com as duas mãos. Puxou: escuro. Soltou: luz.
Pisca, e pisca-pisca, e um looongo piscaaar.
Depois correu para a varandinha em volta da lâmpada e cantou para a neblina, o mais alto que conseguiu:
— Pisca, e pisca-pisca, e um looongo piscaaar! A luz atrás da cauda, e lá na frente o lar!
Silêncio. Só as ondas sussurrando lá embaixo. E, de repente:
— Vu, vu-vu, vu-u-um!
— Ele lembrou! — Solomíia deu um pulo.
Em algum lugar na neblina, uma cauda bateu na água (chuá!), e deu para ouvir Glub nadando cada vez mais longe. E Solomíia continuava piscando e cantando. Os braços dela cansaram, a voz ficou rouca. Então o papai pôs a mão grande e quentinha por cima da mãozinha dela, e os dois puxaram a alavanca juntos.
Piscaram por muito, muito tempo. Até que, lá longe, bem longe, depois da neblina, respondeu outra voz. Grave, tão grave que o farol chegou a zumbir de leve:
— VU-U-U-UM!
E depois mais uma. E outra. E, no meio delas, um fininho "vu-u-um" conhecido.
— É a mãe dele — disse o papai baixinho. — E a família toda.
Solomíia riu. Depois, sem saber por quê, chorou um pouquinho. E depois riu de novo.
De manhã, a neblina derreteu, e o mar ficou azul, azulzinho. Solomíia correu para a enseada, e lá estavam os esguichos! Um grande, outro maior ainda, e um terceiro pequenininho, mas o mais alegre de todos. Nos respingos brilhou um arco-íris.
A grande mamãe baleia nadou mais para perto e cantou com tanta ternura que as gaivotas se sentaram nas rochas para ouvir. Era um "obrigada", e Solomíia entendeu sem precisar de palavras.
— A mamãe disse que agora eu posso nadar para onde quiser! — gritou Glub. — Porque eu tenho a sua canção. E música eu nunca esqueço!
— E você sabe para onde está nadando agora? — perguntou Solomíia, marota.
Glub pensou. E então deu um pulo na água:
— Sei! Para casa!
E os três esguichos, o grande, o maior ainda e o pequenininho, foram nadando devagar para onde o sol vai dormir à tardinha.
Passou uma semana. Toda noite, como tinha prometido, Solomíia se sentava com a lanterna na pedra à beira da água e fazia brilhar sua canção para o mar. Só que agora cantava mais baixinho. Porque a canção empurrava as baleias pelas costas, para longe do farol. Para longe dela.
Até que, numa noite, veio lá do mar:
— Vu, vu-vu, vu-u-um!
Solomíia ficou paradinha. A voz não se afastava. Ficava cada vez mais alta, cada vez mais perto, e então surgiram na enseada as velhas conhecidas costas cinzentas.
— Glub! — exclamou Solomíia. — Você se perdeu de novo?
— Que nada! — bufou Glub, todo orgulhoso. — Eu vim sozinho. De propósito! Virei o nariz para a sua canção, como você disse, e nadei, nadei, e ela foi ficando cada vez mais perto.
— E você não esqueceu?
— O caminho eu esqueci — disse Glub, sincero. — Mas o que você falou enquanto a gente cantava, disso eu lembro. Minhas orelhas têm boa memória!
Solomíia riu tanto que quase caiu da pedra.
— Mas por que você veio, Glub?
Glub franziu a testa. Bom, pelo menos o tanto que uma baleia consegue franzir a testa.
— Ih — disse ele. — Esqueci.
Depois soltou um esguicho para o alto e ficou todo radiante:
— Ah, lembrei! Para ver você.





