Momotaro, o menino do pêssego
Um menino que saiu de um pêssego gigante navega com um cachorro, um macaco e um faisão até a ilha dos demônios para devolver ao povo seus tesouros.
- Um pouco assustador
- Um pouco perigoso
Há muito, muito tempo, no Japão, numa aldeia pequenina à beira de um rio, viviam um velhinho e uma velhinha. Viviam em paz, mas muitas vezes ficavam tristes, porque não tinham filhos.
Certa manhã, o velhinho foi para a montanha buscar lenha, e a velhinha foi ao rio lavar camisas. Ela esfrega, enxágua, e de repente vê: vem descendo pela correnteza um pêssego. E que pêssego! Grande como uma abóbora, coradinho, e com um cheiro tão gostoso que fazia cócegas no nariz.
— Mas que maravilha! — exclamou a velhinha, batendo palmas. — Vou levar para o meu velho se deliciar.
Com um galho, ela puxou o pêssego até a margem, abraçou-o com os dois braços (ai, como era pesado!) e levou para casa.
À tardinha o velhinho voltou, cansado e com fome. A velhinha pôs o pêssego na frente dele. O velhinho pegou uma faca e, mal encostou na casca — crec! —, o pêssego se abriu sozinho ao meio. E lá dentro estava sentado um menino. Pequenininho, bochechudo e dando risada.
— Não tenham medo! — disse ele. — O céu viu como vocês estavam tristes sozinhos e me mandou para vocês.
O velhinho e a velhinha até choraram de alegria.
— Vamos chamar você de Momotaro — disse a velhinha. — Porque “momo” quer dizer pêssego, e “taro” quer dizer filhinho.
Momotaro cresceu depressa. Comia por três, trabalhava por cinco e ria tão gostoso que até os pardais no telhado ficavam quietinhos para ouvir. Ajudava o velhinho a rachar lenha e carregava água para a velhinha. E era tão forte que tirou sozinho a carroça do vizinho do atoleiro, só com as mãos.
Quando Momotaro fez quinze anos, foi falar com o velhinho.
— Pai — disse ele —, o senhor já ouviu falar da ilha dos demônios?
— Quem nunca ouviu? — suspirou o velhinho. — Lá no meio do mar vivem demônios com chifres. Eles vêm de barco até a nossa costa e tomam do povo o ouro, a seda, o arroz, tudo o que encontram. E o povo tem medo e se esconde.
— Pois é — disse Momotaro. — Vou até lá devolver ao povo o que é dele.
O velhinho e a velhinha se entreolharam. Tinham medo de deixar o filho partir. Mas estavam vendo: os olhos dele eram claros, e a mão, firme. Não havia como segurá-lo.
A velhinha passou a noite toda sovando a massa e fazendo bolinhos de painço: redondos, amarelos, quentinhos. Colocou-os numa bolsinha e amarrou na cintura do filho.
— São os melhores bolinhos de todo o Japão — disse ela. — Com eles, nada de ruim vai acontecer com você.
De manhã, Momotaro fez uma reverência aos pais e pegou a estrada.
Ele vai andando pelo campo quando vem correndo ao seu encontro um cachorro malhado.
— Au-au! Aonde você vai, Momotaro?
— Para a ilha dos demônios, devolver ao povo os seus tesouros.
— E o que você tem nessa bolsinha?
— Os melhores bolinhos de painço de todo o Japão.
— Me dá um, e eu vou com você!
Momotaro deu. O cachorro — nhac! — engoliu de uma vez, abanando o rabo sem parar. E seguiram os dois juntos.
Vão andando pela floresta quando, de uma árvore — hop! —, pula um macaco.
— Ui, ui! Aonde você vai, Momotaro?
— Para a ilha dos demônios, devolver ao povo os seus tesouros.
— E o que você tem nessa bolsinha?
— Os melhores bolinhos de painço de todo o Japão.
— Me dá um, e eu vou com você!
Momotaro deu um para o macaco também. Mas o cachorro eriçou o pelo:
— Grrr! Para que a gente precisa desse serelepe?
— E você, para que precisa dessa língua tão comprida? — bufou o macaco.
Mais um pouquinho e ia sair briga. Mas Momotaro se pôs entre os dois.
— Nós vamos fazer uma coisa importante — disse ele com calma. — Quem briga no caminho não chega até o fim.
O cachorro baixou as orelhas. O macaco coçou a nuca. E lá se foram: o cachorro na frente, o macaco atrás e Momotaro no meio.
Chegam a um prado, e lá está passeando um faisão. Tem as penas verdes, douradas e vermelhas, tão brilhantes que chegam a doer os olhos.
— Aonde você vai, Momotaro? — gritou o faisão.
— Para a ilha dos demônios, devolver ao povo os seus tesouros.
— E o que você tem nessa bolsinha?
— Os melhores bolinhos de painço de todo o Japão.
— Me dá um, e eu voo com você!
O faisão também ganhou o seu bolinho. Agora eram quatro. Iam lado a lado e dividiam tudo em partes iguais: o caminho, o pão e as canções.
Finalmente chegaram ao mar. Acharam um barco, içaram a vela e — fiuuu! — o vento os levou pelas ondas. Navegaram um dia inteiro, navegaram uma noite inteira. O cachorro olhava para a frente, o macaco segurava o leme e o faisão voava em círculos lá no alto.
— Estou vendo! — gritou ele de manhã. — Uma ilha! Rochas cinzentas e, em cima delas, uma fortaleza com um portão preto!
Atracaram na praia. O portão era alto e estava fechado, e lá de trás se ouvia: bum-bum-bum! Tambores, gargalhadas, pisadas. Eram os demônios fazendo banquete com o que tinham tirado dos outros.
— Como é que a gente vai entrar? — cochichou o cachorro.
— Eu sei — disse o faisão e — frrr! — voou por cima da muralha.
Atrás do portão estavam os demônios: vermelhos, azuis, verdes, com chifrinhos e calças listradas. Grandes e com cara de assustadores. Mas, assim que o faisão voou para cima deles — toc-toc-toc com o bico no cocuruto! —, eles começaram a gritar “ai, ai” e a correr para todo lado.
— Ai, quem é? Ai, cadê?
Enquanto eles olhavam em volta, o macaco — tec-tec — escalou a muralha, pulou lá dentro e puxou o ferrolho pesado. O portão — nhééc! — se abriu.
— Avante! — gritou Momotaro.
O cachorro se enfiava entre as pernas dos demônios e mordiscava os calcanhares deles. O macaco puxava os topetes. O faisão bicava os narizes. E Momotaro ficou no meio do pátio, empurrando com calma cada um que vinha correndo para cima dele. Os demônios tropeçavam, caíam uns por cima dos outros e rolavam amontoados como sacos de arroz.
Então apareceu o maior demônio de todos, o chefe deles. Tinha chifrinhos pontudos e olhos redondos como pratos. Mas, quando viu o seu bando todo de pernas para o ar, sentou no chão e começou a chorar.
— Piedade, Momotaro! — soluçou ele. — A gente não faz mais isso! Leve tudo, só peça ao seu pássaro que pare de bicar!
— Devolvam tudo o que tiraram do povo — disse Momotaro. — E nunca mais façam mal a ninguém.
— Prometemos! Palavra de demônio! — concordaram os demônios, balançando a cabeça.
Trouxeram tudo: ouro e prata, rolos de seda, colares de coral, sacos de arroz. E ainda um chapéu mágico que deixa a pessoa invisível. Puseram tudo numa carroça, ajudaram a puxá-la até o barco e ficaram muito tempo acenando da praia.
Em casa, Momotaro e os amigos percorreram a aldeia inteira e devolveram às pessoas as suas coisas. Um recebeu de volta uma xícara de prata, outra, a sua seda, e uma vovozinha, o colar do vovô, que ela já tinha chorado como perdido havia muito tempo. As pessoas agradeciam, faziam reverências, e as crianças corriam atrás do cachorro, do macaco e do faisão.
Por último, Momotaro abriu o portãozinho da sua casa. O velhinho e a velhinha correram ao seu encontro e abraçaram o filho bem, bem apertado.
— Você voltou! — sussurrava a velhinha. — São e salvo!
Naquela noite, a casinha à beira do rio ficou mais animada do que nunca. A velhinha fez uma montanha de bolinhos de painço, e deu para todo mundo. O velhinho ouvia a história da ilha dos demônios e ria até chorar quando o macaco mostrava como o chefe tinha sentado no chão. O faisão já contava pela terceira vez como tinha dado bicadas no cocuruto dos demônios de chifre: toc-toc-toc! E o cachorro e o macaco passaram a noite toda sentados lado a lado, dividindo os bolinhos ao meio — e não brigaram nem uma vezinha.





