Sampo, o Lapãozinho
O pequeno sami Sampo parte de noite para a montanha do Rei da Montanha e diz com coragem ao gigante que o sol certamente vai voltar.
- Um pouco assustador
- Perigoso
Muito, muito longe, no norte, onde no inverno o sol não nasce de jeito nenhum, vivia um menino sami chamado Sampo. Ele morava com a mamãe e o papai numa tenda de peles de rena, na margem do largo rio Tana, e em volta pastava o rebanho deles.
A mamãe chamava o filho de Lapãozinho. Foi assim que o batizaram uma vez uns mercadores de passagem: na terra deles os samis eram chamados de lapões, e um samizinho, é claro, era um lapãozinho. A mamãe gostou da palavra, porque soava engraçada e carinhosa, como um guizo no pescoço de uma rena.
Sampo tinha oito anos. Ele já sabia atrelar sozinho a rena à pulka, um trenó baixinho em forma de barquinho, e não tinha medo de nada. Bem, quase nada.
— Não vá longe, Lapãozinho — dizia a mamãe. — Lá, do outro lado do rio, fica o monte Rastekaise. Nele mora o Rei da Montanha, Gijsi. Ele é tão grande que engole uma rena de uma só vez, como você engole uma amora-do-ártico.
— E por que não se vê ele no verão? — perguntava Sampo.
— Porque a barba dele é de gelo. No verão o sol esquenta e a barba derrete. Aí ele se esconde na montanha e espera o inverno.
E o inverno no norte é uma noite longa, longa. O sol se esconde atrás da beira da terra e não aparece nem de manhã nem ao meio-dia. Só brilham a lua, as estrelas e a aurora boreal, verde, branca, rosa, como se alguém tivesse pendurado lenços de seda no céu. Sampo adorava a aurora. Mas fazia tanto tempo que não via o sol que já tinha esquecido como ele era.
— Papai, o sol vai voltar um dia? — perguntou ele uma vez.
— Vai voltar — sorriu o papai. — Venha cá.
Ele levou o filho para fora da tenda e apontou para o sul. Lá, sobre o cume negro do Rastekaise, mal brilhava uma faixinha vermelha, quente como uma brasa na fogueira.
— Está vendo? É o sol vindo até nós. Mais um pouquinho e ele nasce.
— Ai, mas aí os mosquitos vão chegar também! — fez uma careta Sampo.
— Não tenha medo, os mosquitos dormem até o verão — riu o papai.
Naquela noite, Sampo não conseguia dormir de jeito nenhum. Ficava pensando na faixa vermelha e no Rei da Montanha. “Como será a barba dele? — pensava. — Só vou chegar um pouquinho perto da montanha, espiar com um olho só e voltar correndo.”
Saiu da tenda de mansinho, atrelou a rena à pulka e, chiu, chiu pela neve! A rena voava como o vento, as estrelas cintilavam, o frio beliscava as bochechas. E a montanha crescia e crescia, negra, até o céu.
De repente, pof! A pulka bateu numa pedra e tombou. Sampo voou de cabeça num monte de neve, e a rena, sem nem olhar para trás, seguiu galopando para a escuridão.
Sampo saiu, se sacudiu e olhou em volta. Neve por todo lado, silêncio e a montanha. A casa era longe, e os pés congelavam.
— Se eu ficar parado, vou congelar — disse a si mesmo. — É melhor subir.
E subiu. Sobe que sobe, quando vê, em cima de uma pedra está sentado um lobo. Enorme, cinzento, com os olhos brilhando como duas velas verdes.
— Ora, ora — lambeu os beiços o lobo. — Que samizinho é esse? Você vai dar um café da manhã delicioso!
— Eu não sou café da manhã, eu sou o Sampo — disse o menino, embora os joelhos tremessem.
— Não trema tanto — bocejou o lobo. — Hoje é a Festa do Sol. Uma hora antes do nascer do sol e uma hora depois ninguém machuca ninguém, foi o Rei da Montanha que mandou. Suba nas minhas costas, que eu levo você. Mas depois da festa, nham! Então fique esperto.
Sampo pensou que de qualquer jeito não tinha escolha e se acomodou nas costas do lobo. O lobo disparou montanha acima, e a neve voava debaixo das patas.
No alto do Rastekaise estava lotado, não, de bichos! Tinham se reunido todos os animais da Lapônia: ursos e renas, raposas e lebres, corujas e raposas-do-ártico, e até os minúsculos lemingues. Chegaram trolls da distante Svalbard e do próprio Polo Norte, peludos e grisalhos de geada. E no meio, num trono de pedra e gelo, estava sentado Gijsi.
Era tão grande que o gorro dele se prendia nas nuvens. A barba de gelo ia até os joelhos, e os pingentes de gelo nela tilintavam: blim-blim. Os olhos eram como dois buracos congelados no gelo. Ao lado estava a rena dele, de chifres dourados, e os chifres brilhavam no escuro como dois lampiões.
Gijsi se levantou e rugiu tanto que a montanha estremeceu:
— Inverno eterno e noite eterna! O sol morreu! Nunca mais vai nascer!
Os animais baixaram a cabeça. Os trolls deram risadinhas. Até os ursos se calaram. E Sampo saltou de trás do lobo:
— Mentira, Rei da Montanha! Eu vi o sol ontem! Ele já está vindo, e a sua barba vai derreter no verão!
Todos congelaram. Gijsi se virou devagar e esticou para o menino uma enorme mão de gelo…
Naquele mesmo instante, o sol espiou por trás da beira da terra. O primeiro raio, dourado e quente, acertou Gijsi bem nos olhos. O Rei da Montanha fechou os olhos, cambaleou e caiu de volta no trono.
E os animais e os trolls gritaram de alegria. As renas pulavam, os ursos se abraçavam, as lebres davam cambalhotas, e os trolls de Svalbard dançavam tanto que a geada caía deles. As montanhas ficaram rosadas, a neve cintilou, e Sampo ria com todos e oferecia ao sol as bochechas geladas.
Mas a hora da festa passava depressa. Sampo notou que os lobos já olhavam para ele e lambiam os beiços. Então ele se aproximou de mansinho da rena de chifres dourados, pulou nas costas dela e…
— Segure firme! — gritou a rena, e desceram voando a montanha.
Atrás deles retumbou. Era um milhar inteiro de ursos que os perseguia, e atrás deles cem mil lobos. A neve subiu como uma nuvem, a terra ressoava como um tambor. E então trovejou ainda mais forte: o próprio Gijsi vinha descendo da montanha, e cada passo dele era como um trovão.
— Para onde vamos? — gritava Sampo.
— Existe uma casa onde o Rei da Montanha não pode entrar — respondeu a rena. — A casa do pastor perto do lago Inari. Segure mais firme!
Correram por rios e pântanos, por florestas e montes de neve, até que viram uma luzinha na janela. A rena saltou para o pátio, Sampo para a porta, e o velho pastor estava justamente lendo um livro grosso à luz de uma vela.
Então, bum! bum! bum! Gijsi bateu na porta.
— Me dê o menino! Ele é meu!
— Espere um pouco, Rei da Montanha, deixe-me vestir as roupas da igreja — respondeu o pastor com calma.
E enquanto Gijsi esmurrava a porta, encheu uma tigela de água, borrifou a cabecinha de Sampo e o batizou.
A partir daquele momento, Gijsi não tinha mais nenhum poder sobre Sampo. O pastor abriu a porta e disse:
— Este menino não é seu. Vá para a sua montanha.
Gijsi rugiu e se inchou até toda a barba de gelo estalar, e de repente se desfez numa tempestade de neve. Xxxxuuum! A tempestade rodopiou em volta da casa, cobriu-a até o telhado e foi embora voando, para além das florestas e das montanhas.
De manhã, o sol nasceu sobre o lago Inari. Esquentou a terra, e o monte de neve perto da casa afundou, escureceu e escorreu em riachinhos. De Gijsi não sobrou nem rastro.
O pastor emprestou uma pulka a Sampo. O menino atrelou nela a rena de chifres dourados e voou para casa, até o rio Tana. A mamãe saiu correndo da tenda, soltou um gritinho e abraçou o filho tão forte que o gorro dele voou longe. E o papai ria, esfregava os olhos com a luva e dizia:
— Ora, Lapãozinho, que levado você é! Foi receber o sol?
— Fui — assentiu Sampo. — Ele veio. Eu não disse?
Dizem que Gijsi ainda mora no Rastekaise. Todo inverno ele ruge que o sol morreu. Mas sempre aparece alguém, mesmo bem pequenininho, que grita para ele: “Mentira!”, e o sol volta.





