A Macaca e o Crocodilo
A Macaca dá ao Crocodilo doces maçãzinhas cor-de-rosa, mas, quando ele a leva pelo mar até a esposa esperta, só a astúcia a salva.
- Um pouco assustador
- Um pouco triste
- Perigoso
Na beira de um mar azul e morno crescia uma árvore velha: uma macieira cor-de-rosa. Nela morava uma Macaca, e nos galhos amadureciam maçãzinhas cor-de-rosa: pequenas, perfumadas e tão doces que deixavam os dedos grudentos.
Um dia, um Crocodilo chegou nadando até a praia. Subiu na areia, se esparramou ao sol e suspirou:
— Ai, como eu nadei longe! Ai, que fome!
A Macaca espiou por entre as folhas.
— Quer umas maçãzinhas, visitante?
— Ué, isso se come? — espantou-se o Crocodilo.
— E como! Pega!
Ploft! A maçãzinha caiu direto na boca dele. O Crocodilo mastigou, fechou os olhos de prazer e, de repente, abriu um sorriso com todos os dentes.
— Mas isso é a coisa mais gostosa do mundo!
— Então toma mais uma — riu a Macaca. — E mais uma! E mais uma!
Desde então, o Crocodilo vinha todos os dias. A Macaca jogava maçãzinhas, e ele as pegava — nhac! nhac! — e contava o que tinha visto no mar: peixes de lados prateados, uma tartaruga que dorme cem anos, uma ilhota de areia onde morava a esposa dele. E a Macaca contava dos pássaros, do vento e de como se vê longe lá do alto da árvore. E assim os dois ficaram amigos.
Certa vez, a Macaca disse:
— Leve umas maçãzinhas também para a sua esposa. Assim ela também prova.
O Crocodilo encheu a boca e nadou para casa.
A Crocodila comeu as maçãzinhas, lambeu os beiços e apertou os olhos amarelos.
— Doces — disse ela. — Muito doces. Onde você arranja isso?
— Quem me dá é a minha amiga Macaca.
— A Macaca? — falou a Crocodila, arrastando as palavras. — Que macaca é essa que passa o dia inteiro comendo maçãzinhas assim? O coração dela deve ser doce como mel. Ah, se eu pudesse provar esse coração…
O Crocodilo chegou a bater o rabo.
— Que é isso! Ela é minha amiga!
— Amiga, amiga — resmungou a Crocodila, virando as costas. — E em mim você nem pensa. Se não me trouxer esse coração, nunca mais falo com você. Nem uma palavra!
E ficou calada. O Crocodilo nadava em volta dela: silêncio. Trazia um peixinho: silêncio. Cantava uma canção para ela: nada ainda, ela só bufava.
O Crocodilo pensou por muito tempo, e eram pensamentos pesados. Mas no fim nadou até a árvore velha.
A Macaca já esperava no galho.
— Por que você está tão triste hoje?
— É que… — O Crocodilo desviou os olhos. — Minha esposa está zangada. Diz que você me dá maçãzinhas todo dia e eu nunca te convidei para nos visitar. Vem com a gente para a nossa ilhota! Ela vai te receber com uns quitutes.
— Mas eu não sei nadar — disse a Macaca, sem saber o que fazer.
— Então sobe nas minhas costas. Eu te levo bem devagarinho, como um barquinho.
A Macaca queria muito conhecer a ilhota. Hop! E lá estava ela sentada nas costas do Crocodilo, segurando-se nas saliências da pele dele.
E lá foram eles. A água fazia chuá-chuá, o sol brilhava, os peixinhos pulavam. A Macaca ria e virava a cabeça para todo lado. Mas o Crocodilo nadava cada vez mais rápido e não dizia nada.
No meio do mar, onde a praia mal se via, ele disse de repente:
— Macaca, preciso te confessar uma coisa. Minha esposa não quer te oferecer nada. Ela quer o seu coração. Diz que ele é doce de tanto comer maçãzinhas.
A Macaca ficou paralisada. Em volta só havia água, funda e escura: nem um galhinho, nem uma pedrinha. O rabinho dela começou a tremer. Mas ela respirou fundo, lembrou dos seus galhos verdes e deu um tapa na testa.
— Ai, Crocodilo! Por que você não disse antes?
— Ué, o que foi? — espantou-se ele.
— É que eu deixei o coração em casa! Nós, macacos, quando saímos para visitar alguém, sempre escondemos o coração num oco da árvore para não perder. Ele está lá, no oco da nossa macieira, o mais doce de todos. Vamos voltar rapidinho, eu pego e depois nadamos até a sua esposa.
O Crocodilo piscou. Pensou. Piscou de novo.
— Bom, se é assim… Segura firme!
E deu meia-volta. Agora nadava com toda a força, tanto que o rabo fazia a água borbulhar. Lá estava a praia, lá estava a árvore velha.
Assim que o Crocodilo encostou na areia, a Macaca — hop! pulo! — já estava no galho mais alto.
— E então, cadê o seu coração? — gritou o Crocodilo lá de baixo. — Pega e vamos!
A Macaca se ajeitou, enrolou o rabo no galho e balançou a cabeça.
— Ai, como você é bobinho! Por acaso alguém tem dois corações? Meu coração está sempre comigo, bem aqui, no meu peito. E agora ele está batendo forte, porque eu quase me meti numa grande encrenca.
O Crocodilo baixou a cabeça.
— Eu… eu não queria. Foi tudo ideia da minha esposa.
— Eu te dava maçãzinhas — disse a Macaca baixinho. — Te contava do vento e dos pássaros. E você me levou para o meio do mar. Nunca mais eu subo nas suas costas. Vai para casa, Crocodilo.
O Crocodilo ficou um tempo parado no raso, suspirando. Quis responder alguma coisa, mas não encontrou palavras. Então deu meia-volta devagar e foi embora nadando, quietinho, sem um único respingo. Por muito tempo ainda se viam as costas dele entre as ondas, e depois elas também sumiram.
A Macaca ficou no galho até o coração se acalmar. O sol estava se pondo, e a água do mar ficou cor-de-rosa, depois dourada, depois azul. A Macaca colheu uma maçãzinha, a mais doce das que estavam penduradas ali perto, e comeu sozinha, devagar, saboreando.
Desde então, o Crocodilo voltou muitas vezes à velha macieira. Deitava no raso, levantava a cabeça e esperava: e se as folhas farfalhassem e — ploft! — caísse uma maçãzinha? Mas a Macaca só olhava para ele lá do galho mais alto, calada. Nas costas do Crocodilo ela nunca mais subiu, e nem uma maçãzinha cor-de-rosa caiu outra vez na boca dele.





