Como Anansi, a aranha, conseguiu todas as histórias
O pequeno Anansi usa a esperteza para capturar píton, leopardo, marimbondos e fada da floresta e comprar do Deus do Céu as histórias para as pessoas.
- Um pouco assustador
- Um pouco perigoso
Há muito, muito tempo, quando as pessoas ainda não conheciam nenhum conto, todas as histórias do mundo pertenciam ao Deus do Céu. O nome dele era Nyame, e ele as guardava num grande baú de ébano, lá no alto, acima das nuvens. E na terra as noites eram quietas e tristes: as pessoas se sentavam em volta da fogueira, olhavam as faíscas e ficavam caladas, porque não sabiam o que contar às crianças antes de dormir.
Naquele tempo, no meio do capim alto, vivia o pequeno Anansi, uma aranha. Ele era do tamanho de uma avelã, tinha perninhas finas como fios de cabelo, mas dentro da cabeça guardava mais ideias do que há estrelas no céu.
Certa noite, ele estava sentado na beirada da teia, ouvindo as pessoas suspirarem na aldeia.
— Não é justo — disse Anansi à esposa, a aranha Aso. — As histórias têm que viver entre as pessoas, e não ficar cochilando dentro de um baú.
— Então vá até Nyame e peça — sorriu Aso.
— Pois eu vou!
Anansi teceu um fio comprido, compriiiido, prendeu a ponta no vento, e o vento o levou para cima, até o céu. Anansi se agarrou com as patinhas e começou a subir. Subiu um dia, subiu uma noite. Lá embaixo passavam as nuvens, brancas e fofas como lã. Finalmente ele chegou à beira do céu e se viu no pátio dourado de Nyame.
O Deus do Céu estava sentado num banco alto e todo entalhado. Ao redor dele estavam os conselheiros e os anciãos, com trajes listrados de cores vivas. Alguém reparou numa aranhinha minúscula no chão, e todos se calaram, espantados.
— O que você quer, aranhazinha? — retumbou Nyame, e a voz dele parecia um trovão distante.
— Vim comprar as suas histórias — disse Anansi. — Todas, sem faltar nenhuma.
Por um instante, ninguém disse nada. E então o pátio inteiro explodiu numa gargalhada. Riam os conselheiros, riam os anciãos, ria o próprio Nyame, tanto que as nuvens debaixo do pátio começaram a balançar.
— Ai, não aguento! — disse o Deus do Céu, enxugando as lágrimas. — Já vieram até mim chefes ricos de terras inteiras. Trouxeram ouro, marfim, tapetes tecidos à mão. E nenhum deles conseguiu pagar o meu preço. E você, pequenininho desse jeito?
— Então diga qual é o preço — respondeu Anansi, com toda a calma.
Nyame parou de rir e se inclinou para mais perto.
— Muito bem. Traga-me a píton Onini, que engole uma cabra de uma vez só. Traga-me o leopardo Osebo, que tem dentes afiados como facas. Traga-me os marimbondos Mmoboro, que picam como fogo. E traga-me também a fada da floresta Mmoatia, que nenhum ser humano jamais viu. Aí as histórias serão suas.
— Vou trazer — disse Anansi, balançando a cabeça.
E desceu de novo pelo seu fio.
Em casa, ele se sentou ao lado de Aso e coçou a cabeça com duas patinhas ao mesmo tempo.
— E então? — perguntou a esposa.
— Uma píton, um leopardo, marimbondos e uma fada — suspirou Anansi. — Vamos começar pela píton. Ela é comprida e forte, e eu sou pequeno. Na força, não tem jeito.
Aso pensou um pouco e cochichou:
— Corte um galho de palmeira e pegue um cipó. Depois…
E contou ao marido o plano inteirinho. Anansi chegou a dar um pulo de alegria.
Na manhã seguinte, ele cortou um galho de palmeira comprido e reto, jogou um rolo de cipó no ombro e foi até o riacho onde Onini morava, na lama quentinha. Ainda de longe, Anansi começou a discutir em voz alta consigo mesmo:
— Ela é mais comprida! Não, é mais curta! Pois eu digo que é mais comprida! Que nada, é mais curta!
De trás dos juncos se ergueu uma cabeça enorme. Os olhos amarelos da píton faiscaram.
— O que você está resmungando aí, aranha?
— Ah, Onini, que bom que você está aqui — disse Anansi, fazendo uma reverência. — Eu e minha esposa brigamos. Ela diz que você é mais comprida do que este galho de palmeira. E eu digo que não, que você é mais curta. Quem tem razão?
— A sua esposa, é claro — sibilou a píton, toda convencida. — Eu sou a mais comprida da floresta inteira.
— Bom, não sei, não sei… Agora, se você se deitasse do lado do galho, a gente ia ver na hora.
— Pode pôr aí o seu galho!
Anansi pôs o galho na grama. A píton saiu rastejando e se esticou ao lado dele — sss-sss-sss — volta por volta.
— Ih, a pontinha do seu rabo ainda está enroladinha — observou Anansi. — Estique, senão não vale.
Onini fez força e ficou retinha feito corda de violão. A cabeça numa ponta do galho, o rabo na outra.
— Fique bem reta, não se mexa, que eu estou medindo! — gritou Anansi.
E ele mesmo, zás, zás! — enrolou o cipó na cabeça da píton, depois no meio, depois no rabo. E apertou os nós bem apertadinhos.
— Você é mesmo comprida, Onini — disse ele. — Nunca vi ninguém tão comprido assim. Por isso o Deus do Céu também precisa dar uma olhada em você.
A píton sibilou, se contorceu, mas o galho a mantinha reta como uma régua, e ela não conseguiu se soltar.
E assim Anansi levou a píton até Nyame. O Deus do Céu não disse nada, só levantou uma sobrancelha.
— Já tem um — falou por fim. — Faltam três.
No leopardo, Anansi pensou sozinho. Pegou uma enxada e foi até a trilha por onde Osebo passava toda noite a caminho do bebedouro. Cavou, cavou, até abrir um buraco bem fundo. Depois o cobriu com galhos e folhas de um jeito que ninguém ia perceber, e foi para casa dormir.
De noite, a floresta estremeceu:
— Grrr! Bum!
De manhã, Anansi foi até o buraco e espiou lá dentro. Lá embaixo, no meio dos galhos quebrados, estava sentado o leopardo, todo coberto de folhas, bravo e um pouquinho envergonhado.
— Osebo? — exclamou Anansi, batendo as patinhas. — O que você está fazendo aí?
— Não está vendo? — rosnou o leopardo. — Eu caí! Me ajude a sair!
— Ajudo, claro. Mas você vai me comer assim que chegar aqui em cima.
— Não vou, palavra de leopardo!
— Está bem, então.
Anansi envergou uma arvorezinha fina e nova até a beira do buraco, amarrou um cipó na pontinha dela e o baixou lá dentro.
— Amarre no seu rabo, Osebo. Que eu puxo você.
O leopardo amarrou. Anansi soltou a arvorezinha, e ela — fiuuu! — voltou a ficar em pé. Osebo saiu voando do buraco e ficou balançando no ar de cabeça para baixo, com as patas penduradas.
— Ei! Que história é essa?!
— Você pediu para eu puxar, e eu puxei — explicou Anansi, e mais que depressa amarrou as patas do leopardo. — Não fique bravo. Não vai acontecer nada de ruim com você. O Deus do Céu só quer dar uma olhada em você.
Nyame olhou para o leopardo amarrado, depois para a pequena aranha.
— Dois — disse ele, e os conselheiros pararam de sorrir.
Agora era a vez dos marimbondos. Anansi achou uma cabaça grande e vazia, de gargalo estreito, e a encheu de água. Cobriu a cabeça com uma folha larga de bananeira, como se fosse um guarda-chuva. E foi até a árvore velha onde, dentro de um oco, zumbia e zunia o ninho dos Mmoboro.
Chegou de mansinho e — chuá! — jogou água no ninho. Depois — chuá! — em si mesmo.
— Chuva! Temporal! — gritou Anansi. — Marimbondos, salvem-se! Suas asinhas vão ficar encharcadas!
Os marimbondos saíram voando do ninho:
— Zzzz! Onde é que a gente se esconde?
— Aqui, na minha cabaça! Aqui está sequinho!
Os marimbondos olharam para Anansi: lá estava ele debaixo da folha, pingando água. Era chuva mesmo! E o enxame inteiro — zzzzz! — entrou voando pelo gargalo estreito da cabaça.
Anansi tapou o gargalo bem depressa com um tufo de capim seco.
— Pronto — disse ele para a cabaça, que zumbia furiosa nas suas patas. — Agora vocês não se molham de jeito nenhum.
Nyame ficou um bom tempo olhando para a cabaça, de onde vinha um zumbido raivoso.
— Três — disse ele baixinho. — Mas a fada Mmoatia você não vai pegar. Ninguém nunca a viu.
— Ninguém nunca viu — concordou Anansi. — Mas alguém tem que ser o primeiro a ver.
As fadas, como todo mundo sabe, adoram doces. Então Anansi entalhou na madeira uma boneca, pequena como uma criança, com uma cabecinha redonda. Passou nela resina, a seiva grossa e grudenta das árvores, que deixava até as patinhas grudadas. E amarrou na cabeça dela um cipó bem fininho.
Depois amassou inhames doces e misturou com óleo até virar um purê amarelo e cheiroso, e pôs uma tigela bem cheia no colo da boneca. Sentou a boneca debaixo de uma árvore alta, onde as fadas da floresta brincavam ao entardecer, e se escondeu no meio das moitas, segurando a ponta do cipó.
O dia escureceu. A grama farfalhou, e na clareira apareceu a pequena fada Mmoatia, levinha, de cabelos compridos com flores enroscadas. Ela farejou o ar com o narizinho.
— Ai, que cheiro gostoso! — disse a fada, com uma vozinha fina. — Bonequinha, posso provar um pouquinho?
Anansi puxou o cipó, e a cabecinha de madeira fez que sim.
A fada se sentou, toda contente, e começou a comer. Nham-nham, e a tigela ficou vazia.
— Obrigada, bonequinha! — disse ela.
A boneca ficou calada.
— Eu estou agradecendo! Por que você não responde?
A boneca ficou calada.
— Não seja tão mal-educada! — zangou-se a fada, e deu um tapa na boneca com a mãozinha.
Plaft! E a mão grudou.
— Me solte agora mesmo, senão eu bato de novo!
Plaft! E a outra mão grudou também.
A fada empurrou a boneca com o pezinho, e o pezinho grudou. Empurrou com o outro, e esse grudou também. E assim ficou Mmoatia, abraçada à boneca grudenta, só bufando de tão ofendida.
Então Anansi saiu das moitas.
— Boa noite — disse ele, todo educado. — Não tenha medo. O próprio Deus do Céu está convidando você para uma visita.
Quando Anansi subiu ao céu pela quarta vez, Nyame já estava à sua espera. Tinha chamado todo mundo: conselheiros, anciãos, chefes, músicos com seus tambores. Diante do trono estava a píton amarrada, o leopardo pendurado numa vara, a cabaça dos marimbondos zumbindo, e ao lado, sentada, a fada da floresta, ainda grudada na boneca.
O Deus do Céu ficou muito tempo em silêncio. Depois se levantou.
— Escutem todos — anunciou. — Grandes chefes vieram até mim com seus tesouros e não conseguiram pagar. Mas esta pequena aranha pagou. Por isso, a partir de hoje, todas as minhas histórias pertencem a Anansi. E que de agora em diante elas sejam chamadas de histórias da aranha.
— Que assim seja! — gritaram os conselheiros.
Bum-bum-bum! — tocaram os tambores.
Nyame fez um gesto com a mão, e todos foram libertados: a píton foi rastejando para o seu riacho, o leopardo para a sua floresta, os marimbondos voaram de volta para o seu oco, e alguém descolou a fada da boneca com todo o cuidado, usando água morna. Ela bufou para Anansi, mas parece que deu um sorrisinho.
E a Anansi o Deus do Céu entregou o baú de ébano.
Anansi desceu à terra naquela mesma noite. O baú era pesado, e o fio vibrava debaixo dele como uma corda de violão. Lá embaixo, junto à fogueira, as pessoas estavam sentadas em silêncio, como sempre.
Anansi abriu o baú.
E de lá saíram voando as histórias. Histórias de tartarugas espertas e leões orgulhosos, de rios distantes, panelas mágicas e crianças corajosas. Elas se espalharam pelas aldeias como vaga-lumes, entraram em cada casa, pousaram junto de cada fogueira.
E de repente as pessoas perceberam que tinham na ponta da língua palavras que dava vontade de contar. A primeira mãe começou: “Era uma vez…”, e as crianças chegaram mais perto. Depois dela começou um avô, depois um vizinho, depois mais alguém. Pela primeira vez, contos ecoaram por toda a aldeia, e a fogueira estalava tão alegre como se também estivesse escutando.
E Anansi voltou para casa, para a sua teia entre dois talos de capim. Aso já o esperava com o jantar.
— E então? — perguntou ela.
— Todas, sem faltar nenhuma — sorriu Anansi. — E o seu galho de palmeira também virou história.
Ele comeu até ficar satisfeito, se ajeitou na teia, que o vento da noite balançava de mansinho, e adormeceu. E na aldeia as histórias continuaram sussurrando por muito tempo, e as crianças foram pegando no sono uma a uma, ouvindo cada uma delas.
Desde então, todos os contos do mundo são chamados de histórias da aranha. Até este que você acabou de ouvir.





