O Rouxinol
Um imperador troca o rouxinol de verdade por um pássaro mecânico brilhante, mas, quando a Morte chega, só uma canção verdadeira pode salvá-lo.
- Assustador
- Um pouco triste
- Um pouco perigoso
Há muito, muito tempo, na China, vivia um imperador. O palácio dele era feito da porcelana mais fina, tão frágil que era preciso andar com todo o cuidado, mal encostando nas coisas, para que nada tilintasse nem rachasse.
O jardim atrás do palácio se estendia tão longe que nem o próprio jardineiro sabia onde ele terminava. Nas flores mais bonitas tinham amarrado sininhos de prata: quando alguém passava — dlim-dlim! —, olhava para trás sem querer. Depois do jardim havia uma floresta cheia de murmúrios, e depois da floresta se estendia o mar, azul e profundo. Os galhos se debruçavam bem sobre a água, e num deles morava um rouxinol.
Ele cantava tão bonito que um pobre pescador, que toda noite saía ao mar para lançar suas redes, largava o trabalho e ficava parado no barco, sem se mexer.
— Que maravilha, que coisa mais linda! — sussurrava.
Depois ele se lembrava das redes, pegava os remos e esquecia o passarinho. Mas, na noite seguinte, o rouxinol cantava outra vez, e outra vez o pescador ficava parado:
— Ah, como é lindo…
Viajantes do mundo inteiro chegavam à capital do imperador. Ficavam de boca aberta diante do palácio, elogiavam o jardim e, quando ouviam o rouxinol, diziam:
— Isto é o melhor de tudo!
De volta para casa, os viajantes mais estudiosos escreviam livros bem grossos sobre isso, e os poetas compunham versos. E todos falavam do rouxinol da floresta à beira-mar.
Um desses livros foi parar nas mãos do próprio imperador. Ele estava sentado em sua poltrona de ouro, folheando as páginas e balançando a cabeça, todo satisfeito: sobre o palácio tinham escrito coisas bonitas, sobre o jardim, mais bonitas ainda. De repente, leu: “Mas o mais maravilhoso deste país é o rouxinol”.
— O quê?! — O imperador deu um pulo. — Um rouxinol? No meu país? No meu próprio jardim? E eu nunca nem ouvi falar dele! Vejam só o que a gente descobre nos livros!
Ele mandou chamar o cortesão-chefe. O homem era tão importante que, quando alguém de posição mais baixa falava com ele, só respondia “Hum!” e mais nada.
— Dizem que temos aqui um pássaro extraordinário, um rouxinol — disse o imperador. — Por que ninguém me contou?
— É a primeira vez que ouço falar dele, Vossa Majestade — respondeu o cortesão, com uma reverência. — Ele nunca foi visto na corte.
— Quero que ele cante para mim hoje mesmo, à noite! O mundo inteiro sabe o que eu tenho, menos eu!
— Vou encontrá-lo, Vossa Majestade!
Mas onde procurar? O cortesão subia e descia escadas, corria por salões e corredores, perguntava a todo mundo que encontrava. Ninguém tinha ouvido falar do rouxinol. Então ele voltou ao imperador e disse que aquilo devia ser invenção de quem escreve livros.
— Não — cortou o imperador. — Este livro me foi enviado pelo próprio poderoso imperador do Japão, então é verdade. Se o rouxinol não estiver aqui hoje à noite, todos os cortesãos vão ficar sem jantar!
— Ai! — gemeu o cortesão, e saiu correndo de novo. E metade da corte saiu correndo atrás dele, porque ninguém queria ficar sem jantar.
Por fim, apareceu uma menina, uma criadinha da cozinha.
— O rouxinol? Ah, esse eu conheço bem! — disse ela. — Toda noite eu levo o que sobrou do almoço para a minha mãe, que está doente e mora perto do mar. Volto já no escuro, sento um pouquinho na floresta para descansar, e ele canta. E me dá um quentinho no peito, como se a minha mãe estivesse fazendo carinho na minha cabeça.
— Menina — disse o cortesão, todo solene —, leve-nos até o rouxinol. Em troca, você vai ganhar um emprego fixo na cozinha e vai até poder ver o imperador jantar!
Lá se foram eles para a floresta. De repente — “Muuuu!” —, uma vaca mugiu.
— É ele! — exclamaram os cortesãos. — Que voz poderosa para uma criaturinha tão pequena! Com certeza já ouvimos isso antes.
— Mas isso é uma vaca! — riu a menina. — Ainda falta muito.
Perto de um lago, as rãs começaram a coaxar: “Croac, croac! Croac, croac!”
— Encantador! — derreteu-se o músico da corte. — Parecem sininhos!
— Mas isso são rãs! — bufou a menina. — Agora já estamos perto.
E então o rouxinol cantou.
— É ele! — sussurrou a menina, apontando para um passarinho cinzento num galho. — Escutem!
— Será possível? — espantou-se o cortesão. — Eu imaginava que ele fosse… mais vistoso. E ele é tão simplezinho, tão cinzentinho. Vai ver ficou pálido de medo ao ver tantos senhores importantes.
— Rouxinolzinho! — chamou a menina. — O nosso imperador quer muito ouvir você cantar!
— Com prazer — respondeu o rouxinol, e cantou de um jeito que até as folhas estremeceram.
— Parecem sininhos de vidro — avaliou o cortesão. — E vejam como se esforça essa gargantinha! Estranho nunca termos ouvido isso antes. Na corte ele vai fazer um enorme sucesso.
— Quer que eu cante mais uma vez para o imperador? — perguntou o rouxinol. Ele achava que o imperador também estava por ali.
— Excelentíssimo rouxinol, tenho a honra de convidá-lo para ir ao palácio hoje à noite — disse o cortesão, com uma reverência. — Lá o senhor encantará Sua Majestade com o seu canto.
— As minhas canções soam melhor aqui, na floresta verde — disse o rouxinol baixinho.
Mas, quando soube que o imperador fazia tanta questão, foi voando.
No palácio, tudo foi limpo e polido até brilhar. As paredes e o chão de porcelana reluziam com a luz de milhares de lâmpadas de ouro. Nos corredores colocaram as flores mais bonitas, com seus sininhos, e com toda aquela correria e as correntes de vento eles tilintavam tanto que não dava para ouvir nem a própria voz.
No meio do grande salão puseram um poleiro de ouro. A corte inteira se reuniu. A menina recebeu permissão para ficar atrás da porta: agora ela era chamada de cozinheira oficial da corte. Todos vestiram suas melhores roupas e olhavam para o passarinho cinzento. O imperador fez sinal com a cabeça.
E o rouxinol cantou.
Cantou de tal jeito que os olhos do imperador se encheram de lágrimas, e elas rolaram pelo seu rosto. Então o rouxinol cantou com mais ternura ainda, e a canção foi direto ao coração. O imperador ficou tão feliz que mandou pendurar no pescoço do rouxinol o seu chinelinho de ouro. Mas o rouxinol agradeceu e recusou:
— Eu já recebi a minha recompensa. Vi lágrimas nos olhos do imperador, e para mim não existe tesouro mais precioso.
Depois daquela noite, as damas da corte enchiam a boca de água e gorgolejavam sempre que alguém falava com elas. Achavam que assim cantavam como o rouxinol. Até os lacaios e as camareiras declararam que estavam satisfeitos, e olha que agradar a eles era a coisa mais difícil do mundo.
Agora o rouxinol tinha que morar na corte. Deram a ele uma gaiola de ouro e permissão para sair a passeio duas vezes por dia e uma vez à noite. Doze criados iam atrás dele, e cada um segurava uma fitinha de seda amarrada na sua perninha. Belo passeio, esse: não dava nem para voar, nem para cantar de alegria.
A capital inteira só falava daquele pássaro extraordinário. Quando duas pessoas se encontravam na rua, uma dizia: “Rouxi…”, e a outra completava: “…nol!” — e as duas suspiravam, sonhadoras.
Um dia, trouxeram ao imperador um grande pacote com a palavra “Rouxinol” escrita por fora.
— Deve ser mais um livro sobre o nosso famoso passarinho — sorriu o imperador.
Mas dentro do pacote havia uma caixinha, e dentro da caixinha havia um rouxinol mecânico. Era parecido com o de verdade, só que todo coberto de diamantes, rubis e safiras. Era só dar corda com uma chavinha, e ele cantava uma das canções do rouxinol, balançava o rabinho, e o ouro e a prata faiscavam. No pescoço, ele tinha uma fita com os dizeres: “O rouxinol do imperador do Japão não é nada perto do rouxinol do imperador da China”.
— Que beleza! — aplaudiram os cortesãos.
E quem tinha trazido o presente foi logo nomeado Supremo Trazedor Imperial de Rouxinóis.
— Que os dois cantem juntos! — decidiram todos.
Mas não deu certo. O rouxinol vivo cantava do jeito que o coração mandava, e o mecânico só cantava o que os artesãos tinham posto dentro dele. Então deixaram o pássaro mecânico cantar sozinho. As pessoas gostavam de ouvi-lo tanto quanto o de verdade, e olhar para ele era até mais agradável: brilhava como uma pulseira cara.
Trinta e três vezes ele cantou a mesmíssima canção, sem se cansar nem um pouquinho. Os cortesãos queriam mais, mas o imperador disse que agora era a vez do rouxinol vivo.
Mas cadê ele? Ninguém tinha percebido quando o passarinho cinzento saiu voando pela janela aberta, de volta para a sua floresta verde à beira-mar.
— Que ingrato! — indignaram-se os cortesãos. — Pois que vá embora. O melhor pássaro continua aqui com a gente.
E o rouxinol mecânico cantou a mesma canção pela trigésima quarta vez. O músico da corte não se cansava de elogiar:
— Com o rouxinol vivo, a gente nunca sabe o que ele vai cantar no instante seguinte. Mas aqui está tudo claro! Dá para abrir, ver como cada pecinha gira e explicar tudo.
O rouxinol de verdade foi expulso do país. E o pobre pescador, a quem também deixaram ouvir o pássaro novo, coçou a cabeça e disse:
— É bonito, e parecido… Mas falta alguma coisa. Nem sei dizer o quê.
Agora o rouxinol mecânico ficava numa almofada de seda ao lado da cama do imperador. Passou-se um ano. Todo mundo na corte sabia a canção dele de cor, até a última notinha, e até cantava junto.
Até que, numa noite, alguma coisa dentro do pássaro fez — crec! E depois — trrrim-trrrim-trrrim! — as rodinhas giraram à toa, e a música parou.
Chamaram o relojoeiro. Ele mexeu e remexeu por muito tempo, apertou umas coisas aqui e ali e finalmente disse:
— Consertei. Mas as engrenagens estão gastas, e não dá para colocar novas. Agora ele só pode cantar uma vez por ano.
Que tristeza! Uma vez por ano o pássaro mecânico cantava, e o músico da corte fazia um longo discurso dizendo que ele cantava tão maravilhosamente quanto antes. Ninguém discordava.
Passaram-se cinco anos, e uma grande tristeza caiu sobre o país. O imperador ficou gravemente doente, e diziam que ele não ia se recuperar. Nas ruas, as pessoas perguntavam ao cortesão-chefe como estava o imperador, e ele só balançava a cabeça: “Hum!”
Pálido e frio, o imperador estava deitado em sua cama luxuosa. Os cortesãos acharam que ele já tinha morrido e correram para fazer reverência ao novo imperador. Nos salões e corredores, estenderam tapetes macios para que não se ouvissem os passos, e o palácio ficou num silêncio profundo.
Mas o imperador estava vivo. Pela janela aberta, a lua brilhava sobre ele e também sobre o pássaro mecânico.
O imperador mal conseguia respirar, como se alguém estivesse sentado em seu peito. Ele abriu os olhos e viu a Morte. Ela tinha posto a coroa de ouro dele, segurava numa mão o seu sabre de ouro e, na outra, a sua bandeira. E, por trás das pesadas cortinas de veludo, espiavam rostos estranhos, uns sombrios, outros gentis. Eram todas as coisas que ele tinha feito na vida, as boas e as más. Eles sussurravam: “Você se lembra? Você se lembra?” — e aquele sussurro deixava tudo ainda mais pesado.
— Música! — chamou o imperador. — Toquem alguma coisa, para que eu não os ouça! Meu passarinho de ouro, cante! Eu cobri você de joias, eu mesmo pendurei o meu chinelinho no seu pescoço. Cante, vamos!
Mas o pássaro continuou mudo: não havia ninguém para dar corda nele. E a Morte ficou ali sentada, olhando para o imperador. E fez silêncio, um silêncio como nunca houve antes.
De repente, lá fora, ecoou uma canção. Num galho, junto à janela, estava o rouxinol vivo. Ele soube que o imperador estava mal e veio voando para lhe trazer consolo e esperança.
Ele cantava, e os rostos atrás das cortinas iam empalidecendo e se desfazendo. O imperador foi se sentindo mais quentinho e respirando melhor. Até a Morte parou para escutar e pediu:
— Cante, rouxinolzinho! Cante mais!
— Você me dá o sabre de ouro? — perguntou o rouxinol. — E a bandeira? E a coroa?
E a Morte foi entregando tesouro após tesouro, um para cada canção nova. E o rouxinol cantou sobre um velho jardim tranquilo, onde florescem rosas brancas, onde há perfume de lilás e a grama fresca é bem verdinha. E a Morte sentiu tanta saudade do seu jardim que se levantou, virou uma névoa fria e acinzentada e saiu flutuando pela janela.
— Obrigado, passarinho! — sussurrou o imperador. — Eu expulsei você, e você espantou a morte para longe de mim. Como posso recompensá-lo?
— Você já me recompensou — respondeu o rouxinol. — Na primeira vez que cantei para você, havia lágrimas nos seus olhos. Eu nunca vou me esquecer disso. Agora durma e recupere as forças. Eu vou cantar para você.
E cantou. E o imperador adormeceu num sono profundo, tranquilo e reparador.
Quando acordou, já estava curado. O sol entrava pela janela, e o rouxinol continuava pousado no galho.
— Fique comigo para sempre — pediu o imperador. — Você só vai cantar quando tiver vontade. E aquele pássaro mecânico, eu vou quebrar em mil pedacinhos!
— Não faça isso — disse o rouxinol. — Ele fez tudo o que podia. Deixe que fique. Mas eu não consigo viver num palácio. Deixe que eu venha quando quiser. À noite, vou pousar no galho perto da sua janela e cantar sobre os felizes e os tristes, sobre o bem e sobre o mal que escondem de você. Um passarinho voa para longe: vai até o pobre pescador, até o camponês no campo e até todos que vivem longe do seu palácio. Eu amo mais o seu coração do que a sua coroa. Eu vou voltar. Só me prometa uma coisa.
— Tudo o que você quiser! — disse o imperador. Ele já estava de pé, com suas roupas imperiais, apertando o sabre de ouro contra o peito.
— Não conte a ninguém que você tem um passarinho que lhe conta tudo. Assim vai ser melhor.
E o rouxinol foi embora voando.
Pouco depois, os criados entraram no quarto na ponta dos pés para ver o imperador morto. Entraram e ficaram paralisados na porta.
E o imperador sorriu e disse:
— Bom dia!





