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Histórias

O pequeno Muk

Um menino que zombava do pequeno Muk ouve a história dele: chinelos mágicos, calúnia, orelhas de burro. E entende que zombaria não tem graça.

  • Um pouco assustador
  • Um pouco triste
  • Um pouco perigoso
Para os pais

Quando eu era menino, na nossa cidade de Niceia vivia um homenzinho a quem todos chamavam de pequeno Muk. Ele era mais baixo que qualquer um na rua, andava devagar, com um turbante enorme e chinelos de onde as pontas espiavam como dois barquinhos. Saía de casa raramente, uma vez por mês, e então uma turma inteira de meninos corria atrás dele.

— Pequeno Muk, pequeno Muk! — cantávamos. — Vire-se, senão você perde os chinelos!

Muk não se virava. Só apertava mais a capa em volta do corpo e seguia em frente. Até que um dia eu, o mais atrevido de todos, pisei no chinelo dele. Muk tropeçou, olhou para mim e não disse nada. Naquela mesma noite foi falar com o meu pai.

Escondi-me atrás da cortina e esperei a tempestade. Mas meu pai, depois de acompanhar o visitante até a porta, me chamou e ficou um bom tempo em silêncio.

— Sente-se — disse ele, por fim. — Vou contar a você quem é o pequeno Muk. E depois você mesmo decide se tem graça pisar nos chinelos dele.

E foi isto que eu ouvi.

Muk cresceu numa família pobre. Seu pai, Mukrah, era um homem severo e tinha vergonha do filho, porque o menino não crescia como os outros. Não ensinou a Muk nem um ofício nem as letras, e o menino passava quase todo o tempo sozinho em casa. Quando Muk fez dezesseis anos, o pai adoeceu gravemente e logo morreu.

Os parentes dividiram depressa a pobre casinha entre si, e a Muk deram apenas as roupas do pai: uma longa túnica azul, calças largas, um turbante e um punhal velho.

— Vá procurar a sua sorte — disseram, e fecharam a porta.

Muk encurtou a túnica para que não arrastasse, amarrou uma faixa na cintura, enfiou nela o punhal e saiu pelo mundo.

Dois dias andou, comendo frutinhas silvestres e dormindo debaixo dos arbustos. No terceiro dia viu uma cidade, e na cidade ouviu uma voz estranha:

— Venham, meus queridos! Venham, meus gatinhos, o almoço está pronto!

A uma janela aberta estava a velha senhora Ahavzi, chamando seus gatos. Vieram tantos correndo que Muk ficou de boca aberta: ruivos, cinzentos, listrados, fofos como almofadas.

— Senhora — gritou Muk —, aceite-me a seu serviço! Eu sei fazer de tudo.

A senhora Ahavzi examinou-o da cabeça aos pés e assentiu. Assim Muk passou a cuidar dos gatos e dos cachorros dela. Dava-lhes comida, penteava-os, lavava as tigelinhas. Mas os gatos eram espertíssimos. Assim que a patroa saía de casa, corriam pelos cômodos, quebravam jarros e rasgavam cortinas. E quando ela voltava, sentavam-se em fila, ronronando, e olhavam para Muk como quem diz: «Foi tudo ele».

— Você não vigiou de novo! — lamentava a senhora Ahavzi diante dos cacos. — O meu melhor jarro!

— Não fui eu, senhora, foi o Ruivinho Ronrom — explicava Muk.

— Ronrom? — admirava-se a senhora, acariciando o gato, que estava ali com cara de inocente. — Mas ele não faria mal nem a uma mosca!

Assim passaram as semanas. A patroa ralhava, e Muk suspirava. Salário nunca viu, porque a senhora sempre descontava alguma coisa, ora por um jarro, ora por uma cortina. Uma cachorrinha branca, porém, passou a gostar dele. Um dia levou Muk até um quarto onde ele era proibido de entrar. Ali, entre velhos baús, havia chinelinhos minúsculos e uma bengalinha com uma cabeça de leão entalhada.

«Os meus chinelos já gastaram faz tempo — pensou Muk —, e estes servem direitinho». Calçou-os, pegou a bengalinha e decidiu que era melhor ir embora por conta própria do que ouvir todo dia ser repreendido pelas travessuras dos gatos.

Muk saiu correndo pelo portão, e então os chinelos o levaram. Os pés se mexiam sozinhos, tec-tec-tec, as árvores passavam voando como num vendaval, e ele não conseguia parar. Só quando Muk, exausto, gritou «Pare!», os chinelos estacaram de repente.

Sentou-se no meio da estrada, recuperou o fôlego e ficou pensando. Seriam mágicos aqueles chinelos? Muk levantou-se, girou com cuidado sobre o calcanhar uma vez, duas, três, e disse em pensamento: «Até aquele carvalho na colina». Fiuu! E lá estava ele debaixo do carvalho, com o turbante quase voando da cabeça.

Foi assim que descobriu o segredo deles. Basta girar três vezes sobre o calcanhar, e os chinelos levam você aonde quiser. E a bengalinha tinha o seu. Naquela mesma noite Muk atravessava um campo quando, de repente, ela bateu sozinha no chão, toc, toc, toc, três vezes. Muk afastou a areia e achou uma velha moeda de prata. Desde então ele soube: onde há ouro debaixo da terra, a bengalinha bate três vezes, e onde há prata, duas.

— Agora não vou me perder — disse Muk a si mesmo.

Seguiu para a capital, onde vivia o rei, e parou diante do palácio.

— Sou o corredor mais rápido do mundo — disse aos guardas. — Quero servir ao rei como mensageiro.

Os guardas gargalharam. Os cortesãos gargalharam.

— Você? Mensageiro? — bufou o capitão da guarda. — Até você chegar ao portão, a carta já terá amarelado!

Mas o rei, ouvindo risadas debaixo das janelas, saiu para ver. Sorriu e mandou organizar uma corrida: Muk contra o corredor do rei, de pernas longas como as de uma garça.

A corte inteira se reuniu. As damas se escondiam atrás dos leques, os nobres apostavam em que passo Muk cairia. O pernalonga disparou e por um instante deixou Muk para trás. Muk girou três vezes sobre o calcanhar e, fiuu!, só ficou a poeira. Quando o corredor chegou ofegante à meta, Muk já estava lá, ajeitando o turbante.

A corte calou-se. Ninguém mais ria.

O rei fez dele o mensageiro-chefe. Muk levava cartas e ordens tão depressa que o rei não cabia em si de contentamento. Mal o rei dizia: «Queria saber como vai minha irmã lá além das montanhas», e Muk já voltava com a resposta dela. Só os cortesãos olhavam de lado para o novo favorito. Antes zombavam dele, e agora ele almoçava à mesa com eles, e isso eles não podiam perdoar.

— De onde saiu esse nanico? — cochichavam pelos cantos. — Logo um assim, mais perto do rei do que nós!

Muk desejava tanto ser querido, afinal. «Talvez, se eu for generoso, eles fiquem mais gentis», pensou. Uma noite, passeando pelo jardim real, Muk sentiu a bengalinha em sua mão bater no chão, toc, toc, toc, três vezes. Cavou um buraco com o punhal, e ali havia um pote cheio de antigas moedas de ouro.

No dia seguinte Muk começou a distribuir o ouro aos cortesãos. Mas eles só ficaram ainda mais desconfiados.

— De onde um mensageiro tira tanto ouro? — sussurravam ao rei. — Com certeza está roubando do seu tesouro.

O tesoureiro real assentiu com zelo: sim, sim, deve ser o Muk. E quando, na noite seguinte, Muk foi de novo ao jardim, criados o seguiram às escondidas. Agarraram-no ali mesmo, junto ao buraco, com o ouro nas mãos.

— Ladrão! — gritaram todos.

Levaram Muk ao rei.

— Eu não roubei, Majestade! — implorou ele. — Este tesouro estava na terra havia cem anos, desde antes do seu bisavô!

— E como você sabia onde cavar? — perguntou o rei.

Muk calou-se. Falar da bengalinha era entregá-la. E o rei, de cenho franzido, mandou jogá-lo na torre.

Três dias Muk ficou sentado no frio chão de pedra, olhando por uma estreita janelinha. Ninguém foi visitá-lo, ninguém disse uma palavra por ele. Só quando Muk contou sobre os chinelos mágicos e a bengalinha é que o rei concordou em soltá-lo. Mas ficou com os chinelos e a bengalinha, e expulsou Muk do reino.

Muk andava pela floresta com os velhos chinelos gastos, sozinho, faminto e magoado até as lágrimas. «Eu só queria fazer o bem — pensava. — E acabou que atrapalho todo mundo».

Ao entardecer, viu duas figueiras carregadas de figos maduros. Muk colheu alguns da primeira e comeu. Deliciosos! Inclinou-se sobre o riacho para beber e deu um grito. Da água olhava para ele um rosto com um nariz comprido e duas orelhas cinzentas de burro.

— Ai, coitado de mim — sussurrou Muk. — Como se eu já não tivesse tido desgraça demais!

Desesperado, colheu um figo da segunda figueira. Deu uma mordida, e as orelhas encolheram e o nariz voltou a ser o que era. Muk sentou-se na grama, olhou para as duas árvores e sorriu pela primeira vez em muito tempo. Porque agora sabia o que fazer.

Colheu figos das duas figueiras, embrulhou-os separadamente e voltou à capital. Para que ninguém o reconhecesse, Muk se vestiu de camponês pobre e colou uma barba. O cozinheiro do rei procurava justamente algo especial para o jantar, e comprou dele com prazer um cesto inteiro dos primeiros figos.

Naquela noite, à mesa, o rei e todos os cortesãos se fartaram de figos. E de manhã houve uma confusão no palácio. No rei, orelhas cinzentas de burro despontavam acima da coroa, e o nariz pendia até o queixo. No tesoureiro, as orelhas eram ainda mais compridas. Os cortesãos se escondiam pelos cantos, enfiavam lenços na cabeça e gritavam uns com os outros.

— Fomos envenenados! — gritava o tesoureiro, tapando as orelhas com as mãos.

— Cale-se, senão a cidade inteira vai ouvir! — sibilava o rei para ele.

Os médicos quebravam a cabeça, davam chás amargos, faziam compressas, mas nada adiantava. As orelhas continuavam em pé, os narizes pendurados. Então chegou ao palácio um sábio desconhecido, de longa veste preta.

— Conheço o remédio — disse ele.

Era Muk, outra vez disfarçado. Deu a um cortesão um pedacinho de figo da segunda árvore, e as orelhas dele sumiram diante de todos. O rei deu um pulo.

— Venha comigo! — gritou. — Leve do meu tesouro o que quiser, mas me cure!

O rei levou o sábio à sala do tesouro. Entre baús de ouro e pedras preciosas, Muk reparou num canto nos conhecidos chinelinhos minúsculos e na bengalinha com cabeça de leão. Calçou os chinelos, pegou a bengalinha e então arrancou a barba falsa.

— Não me reconhece, rei? — perguntou. — Sou o pequeno Muk, a quem você jogou na torre. Você acreditou nos caluniadores e não quis me ouvir. Pois então carregue as suas orelhas, para se lembrar disso.

Muk girou três vezes sobre o calcanhar e, antes que o rei pudesse dizer uma palavra, de Muk não restava nem sinal.

Desde então o rei anda de orelhas de burro, porque ninguém no mundo, a não ser Muk, sabe de qual figueira são os figos que curam. E o pequeno Muk se estabeleceu na nossa Niceia. É rico, porque a bengalinha encontra tesouros para ele. Mas vive sozinho, porque sabe muito bem que as pessoas sabem rir, invejar e mentir.

Meu pai terminou a história e olhou para mim.

— Então? — perguntou. — Vai continuar cantando debaixo da janela dele?

Não respondi nada, porque minhas bochechas queimavam. Na manhã seguinte, quando os meninos se juntaram de novo para correr atrás de Muk, parei no meio da rua e contei a eles tudo o que tinha ouvido. Escutaram em silêncio. Desde então nenhum de nós pisou nos chinelos de Muk nem cantou provocações.

E quando Muk passava por nós, fazíamos uma reverência, como se faz a alguém que viu e viveu mais do que qualquer um de nós. Muk acenava com a cabeça em resposta. Mas até o fim da vida nunca acreditou que não ríamos dele pelas costas.

Gostou da história?

Inspirado em: Wilhelm Hauff, 1826

Para os pais

Sobre o que é a história

Um menino zomba do estranho pequeno Muk, e o pai conta a ele quem Muk realmente é. As crianças acompanham os chinelos mágicos, mais rápidos que o vento, e a bengalinha que bate três vezes sobre o ouro, e veem como a zombaria e a calúnia machucam.

O que ensina

  • Bondade
  • Honestidade
  • Esperteza

Perguntas para conversar com a criança

  • Por que os cortesãos acreditaram tão depressa que Muk roubava, e por que o rei não quis ouvi-lo?
  • Muk perdoou os meninos, mas nunca chegou a acreditar neles por completo. Por que você acha que foi assim?
  • Foi justo Muk castigar o rei? O que você teria feito no lugar dele?

Em casa

Esconda uma moeda e deixe a criança procurar. Você é a bengala de Muk: bata três vezes quando ela estiver bem perto, duas quando esquentar e fique quieto quando estiver longe. Depois troquem de papel.

Uma frase para lembrar

“E depois você mesmo decide se tem graça pisar nos chinelos dele.”

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