A Pequena Sereia
A caçula das princesas do mar entrega a voz em troca de pernas para ficar perto do príncipe e, na última noite, faz a escolha mais difícil e mais corajosa.
- Um pouco assustador
- Triste
- Um pouco perigoso
Longe, no mar, a água é azul como uma centáurea e tão funda que nenhuma âncora alcança o fundo. Lá, no fundo mesmo, fica o palácio do rei do mar: as paredes são de coral, as janelas de âmbar e o telhado de conchas que se abrem e se fecham quando a correnteza passa. Em cada concha há uma pérola.
O rei era viúvo havia muito tempo, e quem cuidava do palácio era a mãe dele, já idosa. Ela usava doze ostras na cauda, porque era a dama mais nobre do mar, e gostava muito das netas, as seis princesas do mar.
Todas as seis eram lindas, mas a caçula era a mais linda: a pele delicada como uma pétala de rosa, os olhos azuis como o mar num dia claro. Pernas, como as irmãs, ela não tinha. No lugar delas, havia uma cauda de peixe.
Cada princesa tinha no jardim real o seu canteiro. Uma deu ao seu a forma de uma baleia, outra a de uma sereia. Já a caçula fez o dela redondo como o sol e plantou só flores vermelhas, porque o sol, através da água, parecia vermelho para ela. No meio havia uma estátua branca de mármore de um menino, que o mar levara de um navio naufragado. Ao lado, a Pequena Sereia plantou um salgueiro cor-de-rosa, que balançava sobre a areia uma sombra violeta.
Ela era quieta e pensativa. Enquanto as irmãs brincavam com os tesouros dos navios naufragados, ela escutava as histórias da avó sobre o mundo lá de cima: sobre cidades e navios, sobre flores que têm cheiro e sobre peixes que cantam nas árvores. Era assim que a avó chamava os passarinhos, porque, se não, as netas não a entenderiam.
— Quando vocês fizerem quinze anos — dizia a avó —, vão subir, sentar numa rocha ao luar e ver os navios passarem.
As irmãs foram crescendo uma depois da outra, uma por ano. A mais velha contou de uma cidade com luzinhas e sinos. A segunda viu um pôr do sol, quando as nuvens passavam como cisnes dourados. A terceira viu crianças brincando num rio e um cachorrinho que latiu tão alto para ela que a princesa, de susto, mergulhou até o fundo. A quarta viu golfinhos e baleias, e a quinta subiu no inverno e sentou num iceberg.
Mas a caçula teve que esperar mais do que todas. À noite, ficava na janela e olhava para cima, através da água escura. Ali passavam as sombras pretas dos navios, e ela achava que já escutava vozes humanas.
Por fim, ela também fez quinze anos.
— Pronto, agora você também já é grande — disse a avó, e trançou lírios brancos no cabelo dela. — Pode subir.
A Pequena Sereia subiu leve como uma bolha. O sol tinha acabado de se pôr, o céu ainda brilhava de rosa e, sobre as ondas, balançava um navio enorme. No convés tocava música e ardiam centenas de lanternas. A Pequena Sereia nadou até a janelinha de uma cabine e espiou lá dentro.
Estava cheio de gente elegante, e o mais bonito de todos era um jovem príncipe de olhos negros. Naquele dia ele fazia dezesseis anos, e em sua homenagem fogos subiam ao céu, bum! bum!, e se desfaziam em estrelas. A Pequena Sereia mergulhou assustada, mas logo apareceu de novo. Não conseguia tirar os olhos do príncipe.
Tarde da noite, o mar começou a rugir. As ondas cresceram como montanhas negras. O navio estalou, crac!, o mastro quebrou e ele tombou de lado. As pessoas corriam de um lado para o outro. No começo, a Pequena Sereia até se alegrou: agora o príncipe desceria até ela, até o fundo! Mas, no mesmo instante, lembrou que os humanos não podem viver na água. Ao fundo, ele só chegaria morto.
— Não! — e ela se lançou entre os destroços, mesmo com as tábuas quase a esmagando.
O príncipe já não tinha forças para nadar, os olhos dele se fecharam. A Pequena Sereia o agarrou e manteve a cabeça dele fora da água a noite toda, até a tempestade passar.
De manhã, apareceu uma costa: montanhas azuis com neve nos picos, uma floresta verde e, bem junto da água, um prédio branco com uma torre de sino. A Pequena Sereia deitou o príncipe na areia morna, com a cabeça virada para o sol, beijou a testa dele, escondeu-se atrás das pedras e cobriu-se de espuma do mar para que ninguém a visse.
Logo saíram do prédio umas moças. Uma delas viu o príncipe, deu um grito e chamou as pessoas. O príncipe abriu os olhos e sorriu, para ela, não para a Pequena Sereia. Como ele poderia saber quem o salvara?
A Pequena Sereia mergulhou, triste, e voltou para casa.
Daí em diante, ficou ainda mais quieta. As irmãs perguntavam o que ela tinha visto, mas ela calava. De manhã e à tarde, nadava até aquela costa, mas o príncipe não estava mais lá. Abraçava o menino de mármore do seu jardim e não cuidava mais das flores, que cresceram até invadir os caminhos.
No fim, contou tudo às irmãs, e uma delas sabia onde o príncipe morava. A partir de então, a Pequena Sereia vivia nadando até o palácio dele e o olhava passear de barco com bandeirinhas.
— Vovó — perguntou ela um dia —, os humanos, se não se afogam, vivem para sempre?
— Não, minha filha. Vivem até menos do que nós. Nós vivemos trezentos anos e depois viramos espuma nas ondas. Mas os humanos têm alma. Quando uma pessoa morre, a alma dela sobe ao céu, até as estrelas, e vive para sempre. Nós não temos alma.
— Eu daria todos os meus trezentos anos para ser humana por um dia só — sussurrou a Pequena Sereia. — Será que não há mesmo um jeito?
— Há, mas só se um humano amar você mais do que ao pai e à mãe e se casar com você. Então uma parte da alma dele passará para você. Só que isso nunca vai acontecer. A cauda, que aqui achamos linda, na terra parece feia. Lá é preciso ter dois apoios desajeitados, que os humanos chamam de pernas.
A Pequena Sereia olhou para a sua cauda e suspirou.
Naquela noite, houve baile no palácio. As irmãs cantaram, e a caçula cantou melhor que todas, porque tinha a voz mais bonita do mar e da terra. Por um instante, até se alegrou. Mas depois pensou no príncipe e saiu do palácio de mansinho.
“Vou procurar a bruxa do mar — pensou. — Sempre tive medo dela. Mas talvez ela me ajude.”
A bruxa morava depois dos redemoinhos fervilhantes, onde não crescia nenhuma flor. O caminho até lá passava por uma floresta de pólipos, metade plantas, metade bichos. Eles esticavam os braços finos e flexíveis para tudo que passava e não soltavam mais. A Pequena Sereia prendeu bem o cabelo, apertou as mãos contra o peito e atravessou aquela floresta veloz como um peixinho.
A bruxa estava sentada numa casinha de areia branca, e ao redor dela, feito gatinhos, se reviravam preguiçosas umas cobras de água gordas.
— Eu sei por que você veio — disse a bruxa. — É uma bobagem, mas será do seu jeito. Você quer se livrar da cauda e andar em dois apoios para que o príncipe a ame.
Ela deu uma gargalhada tão forte que as cobras rolaram do seu colo.
— Vou preparar uma poção. Antes do amanhecer, nade até a praia, sente-se e beba. A cauda vai se dividir em pernas. Você vai andar com mais leveza do que todos os humanos, mas cada passo vai doer como se você pisasse em facas afiadas. Aguenta?
— Aguento — respondeu a Pequena Sereia, com a voz trêmula.
— E lembre-se: quando virar humana, nunca mais vai voltar para o mar. E se o príncipe se casar com outra, na primeira manhã depois do casamento o seu coração vai se partir e você vai virar espuma nas ondas.
— Que seja — disse a Pequena Sereia, e empalideceu.
— E você vai me pagar com a voz. É a melhor do mar, e é com ela que pensa encantar o príncipe. Então é ela que vai me dar.
— Mas então o que vai me restar?
— A sua beleza, o seu andar leve e os seus olhos, que sabem falar. Isso basta para conquistar um coração humano. Então, ficou com medo?
— Não — disse a Pequena Sereia.
A bruxa pôs um caldeirão no fogo, e a poção começou a ferver e a brilhar como a água sob a lua. A Pequena Sereia cantou pela última vez. A voz dela, fina e pura, flutuou para dentro da concha preta da bruxa. A bruxa fechou a concha, clac!, e tudo ficou em silêncio, um silêncio profundo.
A Pequena Sereia olhou para o palácio do pai, onde as luzes já tinham se apagado, mandou cem beijos para ele e subiu nadando.
O sol ainda não tinha nascido quando ela se sentou nos degraus de mármore do palácio do príncipe e bebeu a poção. Foi como se uma espada afiada a atravessasse, e ela desmaiou. Quando abriu os olhos, o príncipe estava diante dela. A Pequena Sereia olhou para baixo e viu que a cauda tinha sumido e, no lugar dela, havia duas pernas brancas e esbeltas. Envolveu-se no cabelo comprido.
— Quem é você? De onde veio? — perguntou o príncipe.
Ela só olhava para ele com os tristes olhos azuis. Falar, já não podia.
O príncipe a pegou pela mão e a levou ao palácio. Cada passo era como pisar em facas, mas ela andava tão leve, como se nadasse, que todos admiravam o seu andar. Vestiram-na de seda e de musselina, e no palácio não havia moça mais bonita do que ela.
À noite, umas moças cantaram para o príncipe, e ele aplaudiu a que cantava melhor. A Pequena Sereia ficou triste: antes, ela cantava ainda melhor. “Se ao menos ele soubesse que eu dei a minha voz para ficar perto dele”, pensou.
Então a música começou, e a Pequena Sereia se pôs a dançar. Ninguém jamais dançara assim. Ela deslizava pelo chão e, a cada movimento, ficava ainda mais linda. Ninguém imaginava que cada passo dela era sobre facas.
— Você vai ficar comigo para sempre, minha pequena descoberta — disse o príncipe.
Ela dormia numa almofada de veludo diante da porta dele. Cavalgava com ele por florestas verdes, e juntos escalavam montanhas altas. Os pés dela doíam, mas ela só sorria. E, de noite, quando todos dormiam, descia os degraus de mármore até o mar e refrescava os pés na água fria. Então as irmãs emergiam do fundo e cantavam para ela canções tristes. Uma vez vieram até a avó e o próprio rei do mar, de coroa. Estendiam os braços para ela, mas não se aproximavam mais da praia.
O príncipe gostava dela cada vez mais, mas como se gosta de uma criança querida. Casar-se com ela nem passava pela sua cabeça.
— Você é a mais leal de todas — dizia ele. — E se parece tanto com uma moça que vi uma única vez. Certa vez peguei uma tempestade e as ondas me jogaram numa praia perto de um templo. Lá uma moça me encontrou. Só ela eu poderia amar. Mas ela vive no templo, e nunca mais vou vê-la.
“Ele não sabe que fui eu que salvei a vida dele”, pensava a Pequena Sereia, e o coração doía.
Logo começaram a dizer que o príncipe ia viajar até o rei vizinho para conhecer a filha dele.
— Eu preciso, porque meus pais querem — sussurrou ele à Pequena Sereia. — Mas amá-la, não vou. E se tivesse que escolher uma noiva, escolheria você, minha descoberta muda.
O navio os levou a uma cidade estrangeira. E quando a princesa apareceu, o príncipe exclamou:
— É você! Foi você que me salvou quando eu estava na praia!
Era mesmo a moça do prédio branco à beira-mar. Ela tinha estudado ali e agora voltara para casa.
— Estou tão feliz! — disse o príncipe à Pequena Sereia. — Você vai se alegrar por mim, não vai? Você gosta de mim mais do que todos.
A Pequena Sereia beijou a mão dele. Parecia-lhe que o coração já se partia.
O casamento foi celebrado no mesmo dia, e à noite os recém-casados partiram de navio para casa. No convés ardiam lanternas, os marinheiros dançavam, e a Pequena Sereia dançou também, como nunca tinha dançado. Sabia que era a última noite em que veria o príncipe. Por ele, tinha deixado o lar, entregado a voz e suportado a dor todos os dias. E ele nunca ficou sabendo.
À meia-noite, tudo se aquietou. Os recém-casados foram dormir numa tenda suntuosa no convés, e a Pequena Sereia ficou junto da amurada, olhando para o leste, por onde a aurora ia nascer. O primeiro raio de sol ia levá-la.
De repente, as irmãs emergiram das ondas. Estavam pálidas, e o cabelo comprido tinha sumido, restavam só mechas curtas.
— Demos nossas tranças à bruxa para que ela ajudasse você — disse a mais velha. — Ela nos deu uma faca. Se, antes de o sol nascer, a vida do príncipe acabar por esta faca, a sua cauda voltará. Você será de novo sereia e viverá os seus trezentos anos. Depressa! Ou ele, ou você. Está vendo como o céu já está rosado?
As irmãs suspiraram fundo e mergulharam nas ondas.
A Pequena Sereia afastou a cortina da tenda. A princesa dormia com a cabeça no peito do príncipe, e ele, em sonho, sussurrava o nome dela. A faca tremeu na mão da Pequena Sereia.
Ela olhou muito tempo para o príncipe. Depois se virou e arremessou a faca bem longe, no mar. Olhou mais uma vez para aquele que amava e se atirou do navio nas ondas.
Sentiu que se desfazia, que ficava leve como espuma.
Mas então o sol nasceu sobre o mar. Seus raios quentes caíram sobre a água, e a Pequena Sereia não sentiu a morte. À sua volta pairavam centenas de seres transparentes e luminosos, e as vozes deles soavam como a mais suave música. E ela viu que também tinha ficado assim, leve, e que subia cada vez mais alto.
— Para onde estou voando? — perguntou, e tinha voz de novo, só que agora parecida com um sopro de vento.
— Para as filhas do ar — responderam. — A sereia não tem alma imortal. As filhas do ar também não têm, mas podemos merecê-la com boas ações. Voamos para terras quentes e levamos às pessoas um pouco de frescor. Espalhamos o perfume das flores para que os doentes se sintam melhor. Depois de trezentos anos de bondade, recebemos uma alma. Você desejava a mesma coisa com todo o coração. Amou, sofreu e não fez mal a quem amava. Por isso agora está conosco.
A Pequena Sereia estendeu as mãos transparentes para o sol e, pela primeira vez na vida, sentiu lágrimas nos olhos.
No navio já havia agitação. O príncipe e a jovem esposa a procuravam e olhavam tristes para a espuma branca nas ondas, como se adivinhassem para onde ela tinha ido. Invisível, a Pequena Sereia beijou a princesa na testa, sorriu para o príncipe e, com as outras filhas do ar, voou para uma nuvenzinha cor-de-rosa.
E o príncipe nunca soube que, naquela noite, a Pequena Sereia o havia salvado pela segunda vez.





