Rexik e o paquicefalossauro briguento
Um paquicefalossauro novato empurra todo mundo no vale, mas Rexik percebe que o briguento está sempre sozinho, e confiança não se move com uma cabeçada.
Série “Rexik” · história 8 de 9
Desenhos para colorir desta história
- Um pouco assustador
- Um pouco triste
Naquela manhã, Quetza chegou ao rio antes do sol. Ainda nem tinha dobrado as enormes asas e já ia falando:
— Um novato! Tem um novato no vale! Veio de além das Colinas Cinzentas, tem a cabeça redonda e dura feito pedra, e já empurrou Pinha e Avelã! Os dois! De uma vez só!
— Que Pinha e que Avelã? — não entendeu Rexik. Ele estava escolhendo pedrinhas no raso e não levantou a cabeça de imediato.
— Os gêmeos anquilossauros, quem mais! — Quetza estalou o bico. — E quase me empurrou também, quando pousei do lado dele. Eu! Eu não sou dinossauro, sou um réptil voador! Réptil voador ninguém empurra!
Trika, que já fazia um minuto que cutucava, zangada, um tronco velho na margem com os chifrinhos, levantou a cabeça. Esse tronco, ela e Rexik queriam rolar por cima do riacho fazia três dias, para virar uma ponte, e fazia três dias que o tronco ficava onde estava.
— Vamos! — disse Trika. — Vamos ver quem é esse cabeça-dura.
— Melhor não, né? — perguntou Rexik.
Mas Trika já corria, e a gola amarela pulava atrás dela. Rexik suspirou e foi trotando atrás.
Perto das samambaias, onde cresciam as folhinhas mais tenras, o novato estava mesmo ali. Era um pouco mais alto que Trika e andava em duas patas, como Rexik. E a cabeça dele se erguia em uma cúpula alta e pálida, toda enfeitada nas bordas de pequenos calombos ósseos. Pinha e Avelã, dois anquilossaurinhos de couracinha, estavam sentados numa poça, piscando.
— Esta é a minha clareira — disse o novato. A voz dele era grave, como se falasse debaixo de uma pedra. — Quem mais quer?
Ninguém queria. Os pequenos recuaram para dentro dos arbustos.
Rexik reparou numa coisa estranha. O novato não comia as samambaias pelas quais, supostamente, brigava. Nem olhava para elas. Ficou parado, olhando os pequenos se afastarem, por muito tempo, como se esperasse que voltassem.
— Chega — disse Trika, abaixando a cabeça e apontando os chifrinhos. — Agora eu vou mostrar para ele “a minha clareira”.
— Trika, espera. Ele é maior…
— Primeiro eu faço, depois eu penso! — E saiu disparada. Tum-tum-tum!
O novato nem se mexeu para encontrá-la. Só deu um passo para o lado. Trika passou voando, escorregou no barro molhado e — splash! — sentou na mesma poça de onde os gêmeos tinham acabado de sair. A água suja respingou nela até a gola.
Por um instante, todos congelaram. O novato se mexeu na direção de Trika, como se quisesse estender a pata. Depois olhou para Rexik, para os arbustos onde os pequenos se escondiam — e virou as costas.
— Você caiu sozinha — resmungou ele, e foi embora para a floresta velha.
Trika saiu da poça, se sacudiu e bufou, furiosa.
— Você viu? Viu?! Da próxima vez eu vou…
— Vi — disse Rexik baixinho. — Ele queria te ajudar.
— Quem? Ele? Seu Melhor-Não, o sol esquentou demais a sua cabeça.
Durante o dia, Quetza sobrevoou o vale mais duas vezes e, a cada vez, largava lá de cima uma notícia nova, como uma pinha. Que o novato se chamava Briguento. (Na verdade, quem o chamou assim foram os gêmeos, enquanto secavam em cima de uma pedra.) Que ele tinha vindo só com a mãe, e a mãe pastava longe, nas colinas. Que ele empurrou um tronco podre e o tronco rolou até o riacho.
— E ainda descobri o que ele é! — gritou Quetza lá do céu. — Um paquicefalossauro! Quer dizer “lagarto de cabeça grossa”. O osso no alto da cabeça dele é tão grosso que dá para bater nele como numa pedra. E ele empurra com a cabeça! É só isso que ele sabe fazer!
— Não é só isso — disse Rexik baixinho, só para si. Mas Quetza já tinha voado para longe.
Depois do almoço, Rexik e Trika foram pela beira da floresta velha atrás das folhas de cicas de que Trika tanto gostava. O caminho todo, Trika foi inventando o que diria ao Briguento da próxima vez, e a cada vez ficava mais feroz. E Rexik olhava as árvores. Em três troncos, bem na altura de uma cabeça, a casca estava arrancada em manchas redondas. Frescas, claras. E um pouco adiante estava um tronco que alguém tinha tirado do lugar: no chão ainda se via a marca de onde ele ficava antes.
— Trika, olha…
— Depois — Trika dispensou com um gesto. — Acabei de inventar o que vou dizer a ele sobre a poça.
Já de tardinha, quando as sombras das samambaias ficaram compridas, Rexik ouviu um som. Toc. Silêncio. Toc. Silêncio. Toc-toc.
O som vinha da floresta velha.
— Trika — chamou ele. — Está ouvindo?
— É um galho batendo — disse Trika, sacudindo o rabo. Depois prestou atenção. — Só que… para um galho, está alto demais.
Eles se esgueiraram entre os troncos. Rexik pisava com cuidado, porque reparava em cada graveto seco sob as patas. E Trika pisava devagarinho, porque Rexik fazia “psiu” para ela toda hora.
Numa clareirinha no meio da floresta estava o Briguento. Sozinho, sozinho. Diante dele erguia-se um tronco grosso e velho, e a casca estava raspada em manchas redondas, como se alguém a tivesse amassado por muito tempo e com muita teimosia com a testa. O Briguento recuava três passos, baixava a cabeça — toc! — e recuava de novo.
— Vamos — dizia ele ao tronco. — Agora é a sua vez. Vamos, me empurra.
O tronco ficava calado. O Briguento ficou parado um pouco, depois foi até um tronco caído e o empurrou — bum! O tronco balançou e parou. Ele se sentou ao lado e apoiou a cabeça dura na casca.
— Em casa já teriam me empurrado — disse bem baixinho.
Trika olhou para Rexik. Pela primeira vez no dia inteiro, ela não sabia o que dizer.
E Rexik sabia o que era preciso fazer. E justamente por isso não tinha a menor vontade de fazer. O Briguento era maior, afinal, a cabeça dele era feito pedra, e os gêmeos, com certeza, ainda tremiam nos arbustos.
“Melhor não, né?”, pensou Rexik. E então se lembrou de como o novato tinha olhado para os pequenos. Como quem espera.
Ele saiu de trás da samambaia.
O Briguento se levantou num pulo, tão depressa que quase caiu, e apontou a cabeça.
— O que vocês querem? Vieram rir de mim?
— Não — disse Rexik. A voz dele tremia, mas não muito. — A gente ouviu que alguém estava batendo aqui. Pensei que talvez você precisasse de alguma coisa.
— Não preciso de nada — resmungou o Briguento. Mas baixou a cabeça.
Embaixo do tronco havia um pedaço de casca, arrancado por uma pancada. Rexik o pegou. Na casca havia uma marquinha redonda, lisa e certinha, como se alguém tivesse apertado ali uma pedrinha morna.
— Foi você que fez isso? Com a cabeça?
— Fui. — O Briguento, sem saber por quê, ficou sem graça. — Lá de onde a gente veio, eu tinha irmãos, primos, uma turma inteira. A gente passava o dia empurrando uns aos outros: quem tirava quem do lugar. É uma brincadeira. Se você quer que alguém brinque com você, chega e empurra. De leve. Bom… nem sempre de leve.
Trika ficou de boca aberta.
— Então hoje de manhã… você não estava tomando a clareira? Você estava chamando Pinha e Avelã para brincar?!
— E eles fugiram — disse o Briguento. — Aqui todo mundo foge. E você veio brigar. E eu não queria brigar.
— Entre a gente — disse Trika devagar —, quando alguém empurra, quer dizer “vai embora”.
O Briguento olhou para ela, para Rexik, para o seu tronco raspado. E perguntou com uma voz bem diferente, fininha:
— E como é que vocês dizem então “brinca comigo”?
Rexik e Trika se entreolharam.
— Ora… — Rexik coçou o nariz. — A gente diz assim mesmo. “Brinca comigo.”
— Só isso?
— Só isso.
O Briguento ficou calado, como se experimentasse aquelas palavras, feito uma folha desconhecida.
— Meu nome é Sílex — disse ele, por fim. — Não Briguento.
— E eu sou a Trika. E este é o Seu Melhor-Não.
— Rexik — corrigiu Rexik.
— Seu Melhor-Não — repetiu Trika, satisfeita. — Escuta, Sílex. A gente tem um tronco que não consegue mexer faz três dias. Quer?…
Sílex já tinha aberto a boca para rugir “quero” e, provavelmente, empurrar alguém de alegria. Mas fechou. E disse de outro jeito, com capricho, como coisa decorada:
— Brinquem… comigo.
O tronco estava perto do riacho, onde Trika o cutucava com os chifrinhos desde a manhã. Rexik e Trika empurravam com rabos, patas e ombros, e ele só suspirava e continuava no mesmo lugar.
Sílex deu a volta no tronco, mediu a distância e recuou três passos.
Toc! — o tronco se mexeu.
Toc! — mais um pouquinho.
— E não dói? — Trika não aguentou.
— Não — estranhou Sílex. — Lá em cima o osso é grosso. A mamãe diz que é o mais grosso da nossa turma. — E acrescentou, depois de pensar um pouco: — Só que pensar depois disso a gente ainda tem que fazer sozinho.
Trika apertou os olhos, desconfiada, mas não disse nada.
— E agora, todo mundo junto! — comandou Trika.
Rexik empurrava com o ombro, Trika com a gola, Sílex com a cabeça. O tronco girou, deslizou pela grama molhada — e bum! — deitou-se de lado a lado do riacho, de margem a margem. A água embaixo dele gorgolejou de um jeito diferente, como se tivesse se surpreendido.
— Conseguimos! — gritou Trika, e pulou.
Sílex também pulou — e, de alegria, empurrou Trika com a cabeça de lado. Sem força. Mas Trika cambaleou e quase caiu no riacho pela segunda vez no dia.
— Ei!
Sílex congelou. Olhava para Trika como se tivesse se pegado em flagrante.
— Eu… — engoliu em seco. — Eu queria dizer: “Que bom que deu certo”. E também: “Vamos fazer mais alguma coisa”.
Trika bufou um pouquinho. E depois riu.
— Então diz isso com a boca — aconselhou ela. — E guarda a cabeça para os troncos.
Foi então que Pinha e Avelã espiaram de trás dos arbustos. Viram a ponte — e os olhinhos deles brilharam. Depois viram Sílex — e os olhinhos se apagaram.
— Venham cá! — gritou Sílex, e correu na direção deles. — Tem uma ponte! Eu…
Os gêmeos guincharam e sumiram nos arbustos tão depressa que só ficaram deles dois galhinhos balançando.
Sílex parou no meio do caminho. Ficou ali. Voltou ao tronco e se sentou nele.
— Eu não empurrei — disse ele. — Eu nem empurrei.
— Eles ainda se lembram da manhã — disse Rexik, e sentou-se ao lado dele. — E a manhã foi hoje. Faz muito pouco tempo.
— E amanhã vão continuar lembrando?
Rexik pensou. Não queria dizer uma mentira.
— Provavelmente amanhã também.
Quetza passou voando por cima deles, viu Sílex no tronco entre Rexik e Trika e ficou tão surpresa que deu uma volta a mais no ar. Depois saiu voando para espalhar a nova novidade. Mas Pinha e Avelã, naquela noite, não pisaram na ponte mesmo assim.
Sílex foi para as colinas, para junto da mãe, quando o céu ficou rosa. Na despedida, ele deu um passo em direção a Trika, como se fosse dar uma cabeçada na gola dela — e parou.
— Até amanhã — disse ele. Do jeito que se diz no vale.
À noite, Rexik ficou um bom tempo virando nas patas o pedaço de casca. A marquinha redonda era lisa e um pouco morna. Ele colocou a casca na sua prateleira, ao lado da pedrinha listrada, e se aconchegou no ninho.
O papai se inclinou sobre ele, enorme, tapando as estrelas.
— Quando eu era do seu tamanho — começou —, um cabeçudo também me empurrou. Empurrou tão forte que eu voei por cima do rio, por cima de um morro e caí bem em cima da Vovó Anki. E ela nem percebeu!
— E depois? — perguntou Rexik. — Vocês ficaram amigos?
O papai coçou a sobrancelha espessa acima do olho.
— Ficamos. Só que não no mesmo dia. E nem no outro.
E cantou uma canção de ninar tão desafinada que até os grilos nas samambaias se calaram por um instante.
Rexik fechou os olhos. Amanhã Pinha e Avelã provavelmente fugiriam de novo. E depois de amanhã, talvez também. Mas o pedaço de casca com a marquinha redonda estava na prateleira e não tinha pressa nenhuma.





