Rei Barba de Tordo
Uma princesa orgulhosa zomba de todos os pretendentes, depois passa um mês com um músico ambulante e descobre na pele como a risada dos outros arde.
- Uma história tranquila
Era uma vez, num castelo branco, uma princesa linda como uma manhã de maio e orgulhosa como um galo em cima da cerca. Ela tinha um único problema: não conseguia deixar de rir das pessoas.
Um dia o rei, seu pai, chamou ao castelo alguns convidados: príncipes, duques e reis das terras vizinhas. Pensou que talvez a filha fizesse amizade com algum deles e, quem sabe, até escolhesse um noivo. Os convidados se alinharam numa fila no salão, e a princesa foi andando ao longo da fila e achou uma palavrinha para cada um.
— Este aqui é gordo como um barril de mel! — bufou ela.
— E este é comprido e bambo como uma vara!
— E este é vermelho como um caranguejo cozido!
Os cortesãos davam risadinhas, os convidados ficavam vermelhos e olhavam para o chão. O último da fila era um jovem rei, sorridente, de barbinha ruivinha. O queixo dele era um pouquinho torto, quase nada, e por isso a barbinha ficava espetada de lado.
— Ah, olhem só! — riu a princesa. — Uma barba como o bico de um tordo! Rei Barba de Tordo!
O salão inteiro rolou de rir. Já o jovem rei apenas corou, fez uma reverência em silêncio e foi embora. O rei, seu pai, suspirou fundo, mas não disse nada.
Na manhã seguinte, um violino começou a tocar debaixo da janela da princesa. Quem tocava era um músico ambulante: um casaco cinzento remendado, o chapéu enterrado até os olhos, um lenço verde enrolado até o nariz. No braço do violino havia um passarinho de madeira entalhado.
— Ei, músico! — gritou a princesa da janela. — Seu casaco é só remendo em cima de remendo! Pegou emprestado dos pardais?
O músico baixou o arco e respondeu com calma:
— É fácil rir quando se está lá no alto. Quero ver você viver um mês onde eu vivo.
— Pois eu aguento um mês inteiro e nem faço careta! — exclamou a princesa, orgulhosa.
— A palavra de uma princesa é palavra firme — disse o rei, seu pai. Disse com severidade, mas, sabe-se lá por quê, escondeu um sorriso no bigode.
E foi assim que a princesa, com um simples vestido de linho, saiu atrás do músico.
Caminharam por uma grande floresta.
— De quem é esta floresta? — perguntou a princesa.
— Do rei Barba de Tordo.
Caminharam por campos verdes.
— E de quem são estes campos?
— Do rei Barba de Tordo.
Passaram por uma cidade linda de telhados vermelhos.
— E de quem é a cidade?
— Também do rei Barba de Tordo.
— Ai — suspirou a princesa —, se eu não tivesse rido naquela hora…
Por fim chegaram a uma casinha pequena de porta baixa.
— É aqui que eu moro — disse o músico.
A princesa se abaixou para não bater a cabeça e olhou em volta. Nada de criados, nada de tapetes, só um fogão, uma mesa e dois bancos.
— E quem vai acender o fogo? Quem vai fazer o jantar?
— Nós dois — sorriu o músico.
O primeiro mingau dela queimou até ficar preto. O músico não ralhou, só mostrou como mexer e quando tirar do fogo. O segundo saiu ralo como caldo. Já o terceiro não estava nada mau, até saboroso.
Depois ele trouxe um monte de vime.
— Vamos trançar cestos. As pessoas compram com gosto.
O vime arranhava e chicoteava os dedos dela. Ao anoitecer, as mãos da princesa estavam vermelhas e arranhadas. Ela soprou nelas e disse baixinho:
— Ai, se eu não tivesse rido naquela hora…
Depois o músico trouxe da olaria uma carroça inteira de panelas e jarras.
— Fique com elas na feira. Pelas panelas, uns vão dar pão, outros queijo, outros ovos.
No primeiro dia tudo correu bem. As panelas da princesa eram bonitas, e ela mesma era ainda mais bonita, então as pessoas chegavam e compravam. Pela primeira vez na vida, a princesa sentiu orgulho não do vestido, mas do próprio trabalho.
Mas no segundo dia uma carroça passou roncando pela feira. O carroceiro cochilava, o cavalo se assustou e foi direto nas panelas! Plim! Crac! Catapimba! Só cacos pelo chão.
A princesa ficou parada entre os cacos, sem saber o que fazer. E em volta já estavam rindo.
— Que belo comércio!
— A princesa oleira!
— Tão orgulhosa, e as panelas quebradas!
As bochechas dela arderam, como se alguém as tivesse esfregado com urtiga. E de repente ela se lembrou do salão, da fila de convidados e da sua própria risada tilintante. Então era assim que eles se sentiam…
À noite o músico juntou os cacos, não disse nada, só fez um carinho na cabeça dela.
— Não se preocupe. Amanhã tem uma grande festa no castelo do rei Barba de Tordo, e os cozinheiros precisam de uma ajudante. Você vai?
A princesa foi. O dia inteiro descascou nabos, lavou tigelas e carregou água. À noite a boa cozinheira lhe deu uma cesta cheia de pastéis:
— Tome, leve para casa. Você trabalhou bem hoje.
A princesa já ia para a porta, mas parou um instante perto do salão, onde tocavam violinos e rodopiavam os convidados vestidos de seda. Um dia ela também tinha dançado assim… E agora estava ali, de avental, com uma cesta de pastéis.
Foi então que o próprio rei Barba de Tordo, de coroa dourada, se aproximou dela.
— Você dança comigo? — perguntou ele, estendendo a mão.
A princesa se assustou e deu um pulo: a cesta caiu, e os pastéis, pof, pof, pof!, rolaram pelo chão brilhante. Os convidados riram. A princesa cobriu o rosto com as mãos e saiu correndo escada abaixo.
Mas na escada alguém a alcançou.
— Espere — disse uma voz conhecida. — Não fuja.
Ela levantou os olhos. Diante dela estava o rei Barba de Tordo: a mesma barbinha ruiva, o mesmo queixo um pouco torto. E na mão ele segurava um violino com um passarinho de madeira no braço. A princesa perdeu o fôlego: era ele, o músico!
— O músico era eu — disse o rei baixinho. — A casinha é minha, e as panelas, e os cestos. Eu não quis castigar você. Quis que você descobrisse como é quando riem da gente.
As lágrimas rolaram pelo rosto da princesa.
— Agora eu sei — sussurrou ela. — Estou com tanta vergonha. De você, do príncipe gordo, do vermelho, do comprido… De todos.
— Então está bom — sorriu Barba de Tordo. — Eu não queria mais nada.
Ele a pegou pela mão e a levou de volta ao salão. E lá, perto da porta, já estava o pai dela, o rei, sorrindo no bigode. Pelo visto, sabia de tudo desde o começo.
Depois, contam, fizeram também o casamento. Mas os convidados se lembraram daquela noite por outra coisa.
Um velho criado tropeçou na soleira, e da bandeja dele caíram no chão, tchibum, tchibum!, algumas nozes. Alguém soltou uma risadinha. Mas a princesa não riu. Foi a primeira a se abaixar e juntar as nozes, porque agora ela sabia muito bem como a risada dos outros arde.





