Rexik, Trika e a chuva de estrelas
Trika quer pegar uma estrela cadente, Rexik repara que as estrelas se apagam lá no alto, e a “estrela” do papai nem é estrela.
Série “Rexik” · história 9 de 9
- Uma história tranquila
Naquela noite, no Vale das Samambaias, jantaram à beira do rio. O pai do Rexik tinha pescado peixes, a mamãe os arrumou em folhas largas, e Trika, que veio fazer uma visita, mastigava as suas samambaias. Sobre a água, as primeiras estrelas já se acendiam.
— Quando eu era do seu tamanho — disse o papai, lambendo os beiços —, eu peguei uma estrela cadente!
— De verdade? — Trika até parou de mastigar.
— De verdadezinha! Ela voava, voava, e eu — zás! — peguei. Ficou na minha patinha, piscando e fazendo cócegas.
— E onde ela está agora? — perguntou Rexik.
O papai coçou a sobrancelha.
— Ééé… de manhã ela saiu voando. As estrelas, sabe, não gostam de ficar muito tempo numa pata.
A mamãe não disse nada, só sorriu na direção do rio.
Trika levantou de um pulo:
— Eu também vou pegar uma! Rexik, vamos de noite para o Morro Redondo! De lá o céu fica mais perto!
— De noite? — Rexik olhou para as samambaias escuras. — Melhor não, né?
— Ai, Seu Melhor-Não!
— Hoje vai ter justamente uma chuva de estrelas — disse a mamãe com calma. — A Tia Frila já deixou, eu combinei com ela ainda de tarde.
— Mas como a senhora sabia que eu ia pedir? — Trika ficou de boca aberta.
— Os ouvidos da mamãe escutam tudo — piscou a mamãe. — Até o que você só está para dizer.
Rexik deu um pulo. Nunca, nunca antes tinham deixado ele ficar acordado a noite inteira!
Os quatro partiram para o Morro Redondo. Na frente ia Trika batendo as patas, depois Rexik e, atrás, como duas montanhas, a mamãe e o papai. A lua pendia como uma fatiazinha fina, mas as estrelas eram tantas quanto os grãos de areia na margem. Lá embaixo, na grama junto ao riacho, luzinhas esverdeadas piscavam: pisca — e some, pisca — e volta.
— Trika, olha, aqui também tem estrelinhas! — sussurrou Rexik.
— Essas não valem — Trika fez um gesto de desdém. — Eu quero uma de verdade, do céu!
Lá em cima, todos se acomodaram nas pedras mornas e levantaram a cabeça. O papai começou a cantar baixinho uma canção sobre as estrelas. Cantava tão desafinado que Trika chiou:
— Psiu! Vocês vão espantar elas!
De repente — zuum! — um risco prateado cruzou o céu.
— É minha! — gritou Trika, e saiu correndo morro abaixo.
Mas o risco já tinha sumido. Zuum! — outro, num lugar totalmente diferente. Trika deu meia-volta e disparou para lá. Zuum! Zuum! Agora duas de uma vez.
— Parem! Caiam aqui! — Trika escalou o rochedo mais alto e sacudiu o rabo como se fosse uma rede de borboletas.
— Trika, desce — pediu Rexik. — Melhor não, né?
— Primeiro eu faço, depois eu penso! — E pulou do rochedo para agarrar uma estrela em pleno voo.
Pof! Trika caiu num arbusto de samambaia. Primeiro apareceu uma gola amarela, depois um focinho emburrado.
— Por que elas não caem nas minhas patas? — resmungou. — Eu me esforço tanto!
Rexik não corria. Ficou sentado, quietinho, olhando. E notou uma coisa estranha: nenhuma estrela chegava ao chão. Cada uma acendia lá no alto, voava um pedacinho e se apagava. Mais alto até do que voam os quetzalcoatlos. Mais alto até do que as nuvens mais altas.
— Mamãe — sussurrou. — Elas se apagam. Ainda lá em cima.
A mamãe deitou na grama ao lado dele.
— Porque isso não são estrelas, filho. As estrelas de verdade são enormes e ficam muito, muito longe. O nosso sol também é uma estrela, só que pertinho. E as estrelas de verdade não caem em lugar nenhum.
— Então o que é que voa?
— Pedrinhas minúsculas do espaço, menores que um grão de areia. Elas correm tão depressa que, quando entram no ar, esquentam, acendem e queimam. Lá no alto, muito antes de chegar ao chão.
Trika saiu da samambaia, sacudiu a gola e chegou mais perto.
— Então eu nunca vou pegar nenhuma? — fungou ela.
— Ninguém pega — disse a mamãe com carinho. — Nem o maior tiranossauro.
É assim mesmo. Estrelas cadentes são grãozinhos de poeira do espaço que queimam no ar. Chuvas de estrelas já existiam no tempo dos dinossauros e existem até hoje: numa noite limpa, dá para ver também agora.
Trika virou-se para o papai:
— E o senhor? O senhor pegou!
O papai tossiu. Olhou para o céu. Olhou para a mamãe. Depois se abaixou, bem, bem baixinho, até a grama onde piscavam as luzinhas esverdeadas. Uma subiu, deu uma volta e pousou bem no nariz dele.
— Bem… — resmungou o papai. — Aqui está ela. Minha estrela cadente.
Na ponta do enorme nariz do papai estava pousado um vaga-lume, piscando como se desse uma piscadinha.
— Um vaga-lume! — exclamou Rexik.
— Eu era bem pequeno — suspirou o papai. — Ele pousou na minha patinha, piscava e fazia cócegas. Aí eu pensei…
Trika bufou, depois soltou uma risadinha e depois caiu na gargalhada, tanto que a gola até tremeu. Rexik também riu. Até o papai não se aguentou, e com a risada dele o vaga-lume saiu do nariz e voou para a grama, para perto dos seus.
Trika não correu mais atrás das estrelas. Deitou de costas e contava: “Vinte e uma… vinte e duas…” Voltaram para casa quando o céu, a leste, já estava clareando num cinza. Trika bocejava e murmurava pelo caminho: “Quarenta e sete… quarenta e oito…” Estrela nenhuma ela pegou, mas também não deixou passar nenhuma.
Ao pé do morro, Rexik pisou em algo duro e gritou “ai!”. Na grama havia uma pedrinha, pequena e preta como carvão. Rexik pegou e estranhou: tão miúda e tão pesada, como se fosse três vezes maior.
— Mamãe — sussurrou. — E se for uma pedrinha do céu? Dessas que chegaram até aqui?
A mamãe virou a pedrinha na pata.
— As de hoje queimaram todas, você mesmo viu. Mas às vezes caem do céu pedras maiores, e elas chegam até o chão. Quem sabe esta seja uma delas. Ou quem sabe seja uma pedra comum do rio.
— E como a gente descobre?
— Isso ninguém sabe — disse a mamãe, sendo sincera.
Trika parou.
— Eu passei a noite inteira pegando estrelas — protestou ela —, e você só ficou olhando para o chão!
Rexik foi dormir quando já estava claro de vez. Pôs a pedrinha preta na prateleira, junto com os outros tesouros, e se aninhou no ninho.
— Quando eu era do seu tamanho — começou o papai, sonolento —, eu peguei uma lua inteirinha…
— Já ouvi essa — sorriu a mamãe. — Ontem era um vaga-lume.
Rexik olhou para a prateleira. Entre os seus tesouros havia uma pedrinha preta — talvez de um rio qualquer, talvez do próprio céu. E, como ninguém sabia, nem a mamãe, ela parecia ainda mais maravilhosa.





