Rexik, Trika e a disputa dos papais
O pai do Rexik e o Tio Chifre disputam quem é mais forte, enquanto as mamães salvam em silêncio os ninhos com ovos da enchente.
Série “Rexik” · história 7 de 9
Desenhos para colorir desta história
- Um pouco perigoso
De noite, nas montanhas acima do Vale das Samambaias, trovejou e choveu. No vale só chegaram uns pingos, e de manhã tudo em volta fumegava.
Rexik estava sentado na beira do riacho, procurando o tesouro do dia. O riacho estava esquisito hoje: marrom e barrento, e em vez de cantarolar, ele resmungava, como se estivesse bravo. Um graveto passou por Rexik — zuum! — e sumiu.
— Mamãe, por que o riacho está tão rápido? — perguntou Rexik.
A mamãe levantou a cabeça e escutou. O colar de conchinhas no pescoço dela tilintou de leve.
— Porque choveu nas montanhas — disse ela. — Os ouvidos da mamãe escutam tudo. Até o que o riacho diz.
Nessa hora, por entre as samambaias — tum-tum-tum! — chegou correndo Trika. Atrás dela vinham, sem pressa, a mãe e o pai: a alegre Tia Frila e o severo Tio Chifre.
— Rexik! — gritou Trika. — Vamos pular o riacho!
Rexik olhou para a água barrenta.
— Melhor não, né? Hoje ele está bravo.
— Ai, Seu Melhor-Não! — riu Trika.
Então o pai do Rexik saiu de trás das árvores, se espreguiçou e rugiu para o vale inteiro:
— BOM DIA!
O Tio Chifre deu um pulo e, por via das dúvidas, baixou os chifres.
— Por que você ruge desse jeito?
— Ah, foi baixinho — riu o papai. — Quando eu era do seu tamanho… quer dizer, do tamanho do Rexik, eu rugia tão alto que as nuvens caíam do céu.
— Nuvem não cai — resmungou o Tio Chifre. — E, aliás, eu consigo rugir mais alto.
— Você? Mais alto que um tiranossauro?
— Mais alto. E mais forte!
A Tia Frila soltou uma risada tão alta que as libélulas voaram das samambaias. E a mãe do Rexik não disse nada. Ficou olhando muito, muito tempo para o riacho marrom e depois cochichou para a Frila:
— Vamos, Frilinha, vamos disputar também. Só que bem baixinho.
A Frila também olhou para o riacho — e parou de rir na hora.
Os papais logo acharam um juiz. Pela trilha vinha devagar a Vovó Anki, uma velha anquilossauro de couraça verde-amarronzada. Nas costas dela crescia uma flor: a vovó andava tão devagar que a flor tinha tempo de crescer.
— Vovó Anki! — chamou o papai. — Seja nossa juíza! Quem vai rugir mais alto?
— Quem vai roncar mais alto? — repetiu a vovó. — Pois ronquem, meninos, ronquem.
— RU-GIR!
— Ah, rugir. Então rugam. Só não demais, porque meus netinhos ainda dormem nos ovos, ali, na margem baixa.
O papai encheu o peito de ar:
— R-R-R-R-R!
O Tio Chifre fincou as patas no chão:
— MU-U-U-O-O-O!
Choveram folhas das árvores. Das clareiras vizinhas vieram correndo os tricerátopes e rastejando os anquilossauros: o que estava acontecendo? Logo o vale inteiro estava reunido em volta dos papais.
— Empate — anunciou a Vovó Anki. — Eu não ouvi nada.
Depois os papais começaram a empurrar uma pedra. O pai do Rexik empurrou de lado, e a pedra rolou até um arbusto. O Tio Chifre empurrou com os chifres, e a pedra rolou ainda mais longe.
— Aha! — alegrou-se o Tio Chifre.
— Quem empurrou mais perto ganhou — disse a vovó. — Ganha… este aqui, o ruivo.
— Quem empurrou MAIS LONGE! — gritaram os dois papais.
A vovó se virou para ouvir melhor, e a cauda-clava dela — paf! — jogou a pedra nos arbustos. Ninguém nunca mais a viu.
Rexik riu junto com todo mundo e depois olhou em volta. A mamãe não estava em lugar nenhum. A Tia Frila também não.
— Trika, cadê nossas mães?
— Devem ter ido buscar samambaia — Trika abanou a mão. — Olha, olha, agora vem a parte mais engraçada!
Rexik olhou para o chão. Pela terra molhada se estendiam pegadas: as da mamãe, com três dedos compridos, e as da Frila, largas e redondas. E ao lado, sulcos longos, como se alguém tivesse arrastado algo pesado. As pegadas desciam até a margem baixa.
Enquanto isso, os papais inventaram uma terceira disputa: quem ficava mais tempo numa perna só. O pai do Rexik levantou uma perna e balançou. O Tio Chifre pensou muito, porque tricerátopes têm quatro patas e não estava claro quantas levantar. Por fim, levantou três — e balançou ainda mais.
Para não cair, o papai começou a cantar. Cantava tão desafinado que até a Vovó Anki ouviu e fez careta.
— Quem ficar mais tempo em cima da cabeça — anunciou ela —, esse…
— Numa PERNA SÓ!
Rexik não ria mais. Ele escutava. O riacho resmungava agora não onde de manhã, mas mais embaixo — onde ficava a margem baixa.
— Trika — sussurrou. — O riacho está indo para os netinhos da Vovó Anki.
Trika se virou na hora.
— Primeiro eu faço, depois eu penso! — e saiu correndo pelas pegadas.
— Melhor não, né?… — guinchou Rexik. Mas já corria atrás dela.
Na margem baixa, a água tinha saído do leito e se arrastava pela areia. E na areia, em covinhas mornas, estavam os ovos. Os dinossauros não carregavam os ovos por aí: punham direto na terra, em covas, e cobriam com areia e folhas para manter aquecidos. A água fria esfria um ninho desses num instante.
Mas entre a água e os ninhos já havia uma barragem de pedras e troncos. A mãe do Rexik rolava mais uma pedra enorme. O colar dela estava salpicado de barro. A Tia Frila escorava um tronco com a cabeça e bufava. Nenhuma das duas rugia nem competia. Só trabalhavam, e a água, resmungando, desviava para o leito velho e seco, longe dos ninhos.
— Eu ajudo! — gritou Trika, e puxou uma pedra bem de baixo da barragem.
Chhh! — a água espirrou pela fresta.
— Ai… — Trika congelou. — Eu não pensei.
— Põe de volta, filha — disse a Tia Frila, calma.
Trika pôs a pedra no lugar e ficou vermelha até o colarinho.
Mas Rexik olhava com atenção. Debaixo do maior tronco, onde ninguém tinha olhado, glub, glub — subiam bolhinhas. Um fiozinho de água se esgueirava escondido em direção aos ninhos.
— Mamãe! Ali, debaixo do tronco, tem um buraco!
A mamãe empurrou uma pedra chata, a Tia Frila a prensou com a cabeça, e Rexik e Trika taparam as frestas com pedrinhas e barro. A água gorgolejou, resmungou — e foi embora pelo leito velho. Os ninhos ficaram secos e quentinhos.
— Isso é que é disputa! — gargalhou a Tia Frila pela margem inteira. — Quem rola mais pedras!
— Já de manhã eu ouvi que o riacho não resmungava à toa — sorriu a mamãe.
Rexik se abaixou perto do barro. Ali havia uma pedrinha com um furinho de lado a lado, que a água devia ter levado cem anos para fazer. O tesouro do dia.
Quando voltaram à clareira, os papais ainda estavam numa perna só. Quer dizer, o papai numa, e o Tio Chifre numa de quatro. Os dois balançavam como samambaia no vento, e o vale inteiro olhava.
— Vovó! — gritou Rexik com todas as forças. — As mamães fizeram uma barragem no riacho! Os seus netinhos estão secos!
— O quê, o quê? — a Vovó Anki levantou a cabeça. — Quem rolou mais pedras? Era só ter dito logo!
Ela pensou um pouco e anunciou:
— As mamães ganham! Rolaram mais pedras, e foram as que menos se ouviram!
Os papais se entreolharam. O pai do Rexik baixou a perna, o Tio Chifre baixou as suas três — buf! buf! — e os dois se sentaram na poça.
— Perdemos — disse o papai.
— Os dois — disse o Tio Chifre. E, pela primeira vez, riu ao lado de um tiranossauro, e riu tanto que o chifre lascado chacoalhou.
De noite, Rexik pôs a pedrinha furada na sua prateleira, junto com os outros tesouros, e se aninhou no ninho.
— Quando eu era do seu tamanho — começou o papai —, eu sozinho fiz uma barragem num rio inteiro. Só com o rabo!
— Essa eu já ouvi — sorriu a mamãe. — Ontem você pulou esse rio num pulo só.
Rexik olhou pelo furinho da pedrinha para a mamãe, depois para o papai — e fechou os olhos. Longe, o riacho resmungava, já pelo lugar para onde as mamães o tinham desviado.





