Rexik, Trika e o pescoço mais comprido
Trika aposta com a altíssima Ália quem acha primeiro a bolsinha perdida de Quetza. Mas a bolsinha estava onde Ália não consegue olhar.
Série “Rexik” · história 4 de 9
Desenhos para colorir desta história
- Uma história tranquila
Certa manhã, chegou ao Vale das Samambaias uma visitante tão alta que, no começo, Rexik achou que era uma árvore andando até o rio.
Bum… bum… — faziam os pés dela. O pescoço subia como um tronco, e a cabecinha balançava lá no alto, perto das nuvens. A pele era cor de areia, com pintinhas verdes, como se alguém a tivesse salpicado de folhas.
— É a Ália! Ela é um alamossauro! — gritou Quetza lá do céu. — Ela veio do sul, agora vai morar aqui com a gente, e ela é muito educada, e eu soube primeiro, porque eu sou a carteira! E eu não sou dinossauro, sou um réptil voador!
Quetza pousou num galho da magnólia alta e começou a separar as cartas. Bem nessa hora, Ália estava passando debaixo da magnólia. Quetza bateu as asas para dar oi com tanta força que choveu folha dos galhos.
— Ai, alguma coisa está fazendo cócegas — riu Ália, mexendo os ombros. — Deve ter caído uma folhinha.
E seguiu em frente, até o rio, onde quase o vale inteiro já estava reunido.
— Ália, o que tem atrás do morro? — gritou Rexik.
Ália levantou a cabeça mais alto ainda.
— Lá a Vovó Anki está cochilando. Nas costas dela desabrochou uma flor.
— E do outro lado do rio?
— Lá o seu pai está pescando. E acho que está cantando.
Todo mundo prestou atenção. E não é que do outro lado do rio veio mesmo um “Lá-lá-lá-á-á!” todo desafinado? A Tia Frila riu tão alto que os passarinhos saíram voando de uma moita.
— Os alamossauros estão entre os maiores dinossauros que já existiram — disse ela. — Do nariz até a ponta da cauda, a Ália é mais comprida que dois pais do Rexik!
— Uaaau — suspiraram todos.
Todos, menos Trika. Trika bateu o pé.
— Grande coisa, enxergar longe! — bufou ela. — Pois eu acho qualquer coisa mais rápido que todo mundo. Porque eu corro!
— Trika, melhor não, né?… — sussurrou Rexik.
— Não tenha medo, Seu Melhor-Não — disse ela, abanando a pata.
Bem nessa hora — fuuu, fuuu! — Quetza despencou na margem. Crista em pé, asas abertas.
— Socorro! Socorro-socorro-socorro! Minha bolsinha sumiu! E nela tem cartas para o vale inteiro! Para o Tio Chifre, para a Vovó Anki, para a sua mãe, Trika, e mais uma, muito importante, só que eu esqueci de quem é!
— Eu vou achar! — gritou Trika. Ela se virou para Ália e apontou os chifrinhos. — Vamos apostar! Quem achar a bolsinha primeiro é o melhor farejador do vale. E quem perder vai ter que dizer isso em voz alta, na frente de todo mundo.
Ália piscou lá de cima, surpresa.
— Bom… tudo bem — disse ela.
— Ai, filha — suspirou a Tia Frila, balançando a cabeça, e, sabe-se lá por quê, sorriu.
Ália ergueu a cabeça acima das árvores e foi virando devagar: para cá, para lá.
— Estou vendo o rio — dizia ela. — Estou vendo um ninho no rochedo. Estou vendo o Tio Chifre e o pai do Rexik discutindo quem ruge mais alto… A bolsinha eu não estou vendo.
Mas Trika já disparava. Pulo por cima da pedra! Zás, debaixo da samambaia! Pum, no meio das cicas! Tchibum no riacho, espirrando água até o céu!
— Achei! — veio lá das moitas. — Ai, não. É uma pinha.
Rexik não correu. Ele andava devagar e olhava para o chão, porque no chão sempre tem alguma coisa: uma pedrinha, uma pegada, uma peninha.
Perto da trilha, numa samambaia, estava pendurada uma folha. Uma folha verde comum, só que toda riscada de tracinhos miúdos.
— Quetza — chamou Rexik —, isso não é seu?
Quetza veio voando e exclamou:
— É meu! A carta para o Tio Chifre! Então a bolsinha está aqui perto!
Um pouco adiante, outra carta estava presa num arbusto. E mais adiante ainda, num galho, mais alto que a cabeça do Rexik. Rexik parou e franziu a testa. As cartas não estavam em qualquer lugar. Estavam ao lado de pegadas grandes e redondas. Tão grandes que Rexik podia sentar em qualquer uma delas, como num buraquinho.
— As cartas estão caindo lá de cima — disse Rexik para si mesmo. — De muito, muito alto. E quem andou por aqui hoje lá no alto assim?
Ele seguiu as pegadas. Elas atravessavam o campo e iam direto até… a Ália. Ália estava no meio do capim, esticando o pescoço até a floresta e apertando os olhos.
Rexik hesitou. Melhor não, né? Iam achar que ele estava inventando.
Bem nessa hora — fuuu! — uma carta veio planando lá de cima e bateu bem no nariz dele.
Rexik ergueu a cabeça. Lá no alto das costas da Ália, entre os ombros, balançava uma bolsinha de folhas. A alça tinha enganchado num calombo da pele e estava presa firme, bem firme.
— Ália — gritou Rexik. — Ela está nas suas costas!
— Onde? — Ália virou o pescoço para a esquerda. Nada. Para a direita. Nada. — Eu enxergo o vale inteiro até o morro — disse ela, atrapalhada —, mas as minhas próprias costas eu não enxergo!
— A magnólia! — guinchou Quetza. — Eu acenei para você, e a alça — tchuc! — enganchou! E eu nem percebi! E você ainda disse: “Alguma coisa está fazendo cócegas”!
Ela voou até as costas da Ália e soltou a bolsinha com cuidado.
Das moitas pulou Trika, encharcada, enlameada, com uma pinha no chifrinho.
— Eu quase… — começou ela, e ficou quieta.
Todo mundo olhava para ela. Para a bolsinha com a Quetza. Para a Ália, que continuava tentando olhar por cima do ombro.
— E então, quem ganhou? — perguntou a Tia Frila, com os olhos rindo.
Trika abriu a boca. Dava para dizer: “Não vale! O Rexik nem apostou!” Dava para dizer: “A bolsinha estava na Ália, isso não é justo!” Trika ficou ali parada um pouco, raspando o chão com o pé. Depois disse bem alto, para o vale inteiro ouvir:
— Eu perdi. Corri mais rápido que todo mundo e só achei uma pinha. O melhor farejador do vale não sou eu.
A gola amarela dela chegou a ficar cor-de-rosa.
A Tia Frila riu tão alto que todos os passarinhos da magnólia levantaram voo de uma vez.
— Mã-ã-ãe! — gemeu Trika.
Mas o que foi dito está dito, e Trika sabia disso.
Enquanto isso, Quetza remexia na bolsinha.
— E esta carta, Rexik, a que caiu no seu nariz, pode ficar com ela. Fui eu que escrevi para mim mesma. Sabe o que está escrito? “Quetza, não perca a bolsinha!”
Todo mundo riu. Até a Trika, um pouquinho.
À noite, Rexik chegou em casa com a folha riscada nas mãos.
— Já sei, já sei — disse a mamãe, antes que ele abrisse a boca. — A Trika perdeu, e a bolsinha passou o dia inteiro passeando nas costas da Ália.
— Como você sabe?
— Os ouvidos da mamãe escutam tudo.
— Quando eu era do seu tamanho — trovejou o papai —, eu achei uma bolsinha nas costas do maior… do maior…
— Da maior nuvem — completou a mamãe. — Essa eu já conheço.
Rexik colocou a folha na prateleira, entre a pedrinha listrada, a folha seca e a carta de três palavras. Depois se aconchegou no ninho e fechou os olhos.
Lá de cima se vê o vale inteiro, pensou ele. Mas tem coisa que só se vê cá de baixo.





