Timko e o dentinho mole
O primeiro dente de leite de Timko cai bem no meio de uma gargalhada e some, e o Bosque dos Carvalhos inteiro o procura até a noite.
Série “Timko” · história 5 de 9
- Uma história tranquila
Um dente de Timko ficou molinho. Um de baixo, da frente, bem pequenininho. Timko encostava a língua nele, e o dentinho se inclinava para a frente como uma folhinha ao vento e depois voltava para trás.
— Mexe, mexe! — dizia Timko. — Mamãe, olha!
— Estou vendo — sorriu a mamãe. — É um dente de leite. Ele já fez o seu trabalho e logo vai cair sozinho, e no lugar dele vai nascer um novo, de verdade.
— E quando?
— Quando ele quiser.
Timko não gostou nada desse «quando ele quiser». Ele já tinha seis anos e queria que tudo acontecesse de uma vez.
Enquanto isso, o papai andava pela cozinha de prateleira em prateleira e espiava embaixo da mesa.
— Cadê o meu lápis? — resmungava ele.
— Papai, ele está atrás da sua orelha! — riu Timko. — Você está procurando o que está em você!
O papai apalpou o lápis, fez «hum» e piscou:
— Acontece.
A mamãe olhou para o dentinho de Timko, depois para o papai, e tirou do gancho o avental azul.
— Vou assar uma torta, por via das dúvidas.
E Timko correu até o grande carvalho, em cujo oco morava a Vovó Coruja.
— Vovó Coruja! Meu dente está mole! Quando é que ele vai cair?
A Coruja limpou os óculos com a asa e apertou os olhos cor de âmbar.
— Uh-uh! Lá vai uma adivinha. Ele vem não quando você espera, mas quando você ri. E se esconde onde é mais quentinho. O que é?
Timko pensou, fungou com o narizinho e deu de ombros.
— Não sei. Será a primavera?
— Talvez a primavera — piou a Coruja, fechando um olho. — Ou talvez não.
Depois do almoço chegaram correndo Ruivinho e Pipoca. Ruivinho, como sempre, ia na frente, tão depressa que as folhas voavam debaixo das patas.
— Eu primeiro! — gritou ele. — Mostra o dente!
Timko abriu a boca e balançou o dentinho com a língua. Ruivinho assobiou. Ele também apalpou cada um dos seus dentes com a língua, mas nenhum se mexeu.
— Não é justo — resmungou. — Eu sempre sou o primeiro.
— Mas você foi o primeiro a chegar — disse Pipoca. Ela estava sentada num toco, e a margarida atrás da sua orelhinha balançava.
— Quando meu pai era pequeno — contou Timko —, ele jogava o dente por cima do ombro e dizia: «Ratinho, ratinho, toma um dente de osso e me dá um de ferro!». Lá em casa é uma brincadeira.
Ruivinho olhou de esguelha para Pipoca:
— Pipoca, então é você que leva os dentes?
Pipoca riu tanto que rolou do toco para a grama.
— Eu? Pra que eu quero dentes dos outros? Os meus crescem a vida inteira, e ainda tenho que desgastá-los para não ficarem compridos demais! Os meus já me bastam!
Timko riu também. Nenhum ratinho troca nada. O dente novo vai crescer sozinho, sem troca nenhuma. Assim é até mais interessante.
A mamãe trouxe para a mesa, debaixo do carvalho, uma torta de maçã. Quentinha, douradinha, soltando vapor. Lili andava ao lado, nas perninhas curtas, esticando a mão para cada pedaço:
— Pra mim! Pra mim! Torta!
Timko pegou o seu pedaço e ficou paradinho. E se ele mordesse e doesse?
Ele parou, fungou com o narizinho e sussurrou:
— Inspira, expira… e vamos lá!
E mordeu. Crec! A torta estava deliciosa, e o dentinho só balançou e ficou onde estava.
— Pois é — suspirou Timko. — Nem a torta tira ele.
Então Ruivinho resolveu ajudar do seu jeito. Encheu as bochechas, vesgou os olhos para o nariz e mexeu as orelhas, uma para cá, outra para lá.
— Eu sou um texugo rabugento que foi acordado no meio do dia! — roncou ele com voz grossa.
Timko soltou uma gargalhada. Pipoca guinchou de tanto rir. Lili bateu palminhas. Timko ria tanto que balançou no banco, e de repente alguma coisa cutucou de leve o seu lábio.
Ele ficou quieto. Apalpou com a língua. Onde antes estava o dentinho, agora havia um buraquinho, lisinho, quentinho e um tiquinho salgado.
— Caiu! — exclamou Timko. — Meu dente caiu!
No lábio apareceu uma gotinha de sangue. Timko se assustou um pouco, mas a mamãe já estava ao lado dele com uma caneca de água.
— Enxágua a boquinha. Assim. Um pouquinho de sangue é normal, daqui a pouco passa.
Timko enxaguou a boca e cuspiu a água na grama. E era verdade: a gotinha sumiu.
— E o novo, quando vai nascer?
— Devagarzinho — disse a mamãe. — Ele não tem pressa, porque vai crescer para a vida toda.
— E cadê o velho? — lembrou Timko.
Todos olharam para a mesa. Para o banco. Para baixo do banco. O dente não estava em lugar nenhum.
E começou a busca. Ruivinho fuçava a grama com o focinho: «Eu acho primeiro!». Pipoca, que repara em tudo que é miudinho, espiava embaixo de cada folhinha. Lili juntava bolotas e mostrava cada uma, toda feliz: «Dente! Dente!». Mas eram bolotas. Até a Vovó Coruja voou para um galho baixo e girava a cabeça ora para a esquerda, ora para a direita.
— De noite eu enxergo cada formiga — resmungava ela. — Mas o seu dente parece que a terra engoliu.
Procuraram até o sol se esconder atrás dos carvalhos. Não encontraram.
Timko ficou tão chateado que quase chorou. Ele tinha esperado tanto por esse dente! E agora não havia dente, nem brincadeira, nem «ratinho, ratinho».
— Estou triste — disse ele.
— Claro que está — a mamãe se agachou e o abraçou. — Você esperou tanto.
Ao entardecer, Ruivinho e Pipoca foram para casa, e cada um levou um pedaço de torta. Sobrou torta além da conta, como sempre.
Na cozinha, o papai pôs Timko de costas para o batente da porta, onde ficava a tabuinha de altura. Nela já havia riscos com desenhinhos minúsculos: um coração, uma mochilinha, uma estrela, uma cruzinha de curativo. E mais embaixo corria a fileira da Lili, riscos curtinhos, um acima do outro.
— Opa — disse o papai. — Você cresceu.
Ele correu os olhos pela cozinha apertada, onde a mamãe, a Lili e a torta mal cabiam juntas, e, sem saber por quê, ficou pensativo. Depois bateu as mãos nos bolsos.
— Cadê o meu lápis?
Timko, mesmo triste, sorriu e apontou para a orelha do papai. O papai tirou o lápis e, de repente, apertou os olhos.
— E o que é isso que você tem aí?
Com cuidado, enfiou a pata no cachecol vermelho de Timko, nas malhinhas macias bem debaixo do queixo. E tirou de lá uma coisinha pequena e branca, como uma pérola minúscula.
— Meu dente! — Timko deu um pulo. — Ele estava no cachecol o tempo todo!
— Você procurava o que está em você — disse o papai, sério. — Acontece.
Timko lembrou a adivinha da vovó. «Vem quando você ri. E se esconde onde é mais quentinho.» E onde é mais quentinho do que no cachecol de tricô da mamãe?
O papai riscou uma linha acima da cabeça de Timko e desenhou ao lado um dentinho minúsculo. Lili esticou a mão para o de verdade: «Pra mim!». Mas Timko o apertou no punhozinho.
— Não, Lili, esse é meu. Os seus ainda vão ficar moles um dia, você vai ver.
Depois a família toda saiu para a varanda. Timko ficou de costas para a casa e, como o papai fazia antigamente, disse:
— Ratinho, ratinho, toma um dente de osso e me dá um de ferro!
Mas não jogou o dente: guardou-o na caixa de botões da mamãe. Porque brincadeira é brincadeira, mas um dentinho que ficou tanto tempo mole e se escondeu tão esperto, Timko queria guardar para si.
O papai riu tanto que o lápis caiu de trás da orelha dele. Dessa vez não precisou procurar: Timko o pegou primeiro.





