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Histórias

Timko e os amigos brigados

Ruivinho visita Timko, e os amigos disputam quem é o melhor amigo dele, até Timko dizer a Tchibum palavras que não dá mais para tirar de volta.

Série “Timko” · história 7 de 9

  • Um pouco triste
Para os pais

Naquela manhã, a casa nova na Clareira dos Freixos cheirava a maçã. A mamãe do Timko tinha amassado a massa antes de o sol nascer.

— Vou assar uma torta, por via das dúvidas — cantarolava ela.

E a ocasião era mesmo especial: pela primeira vez depois da mudança, Ruivinho vinha visitar Timko. Lá do Bosque dos Carvalhos, do outro lado da floresta!

Timko estava sentado na varanda, de olho na trilha. Ao lado dele, Lili, de gorrinho rosa, também ficava de olho, embora não soubesse em quem.

— Ele está vindo? — perguntava ela a cada minuto.

— Ainda não — bufava Timko.

— Ainda não — bufava Lili.

De repente, entre os freixos, zás! passou um rabo ruivo de ponta branca.

— Eu primeiro! — gritou Ruivinho, e foi o primeiro a subir na varanda, embora ninguém estivesse competindo com ele.

— Eu primeira! — guinchou Lili, e também pulou no degrau.

Timko correu para abraçar o amigo, e Ruivinho deu um pulo:

— Ai, você espeta!

— É de alegria — riu Timko.

A mãe do Ruivinho cumprimentou a mamãe do Timko, prometeu voltar para buscar o filho quando o sol se pusesse atrás dos freixos e foi embora pela floresta. E a mamãe do Timko trouxe para a varanda uma torta corada.

— É para o almoço — disse ela. — Quando a balsa de vocês flutuar.

— Vamos ao riacho! — Timko puxou Ruivinho pela patinha. — O Tchibum está lá. Passamos uma semana inteira amarrando a balsa, e hoje vamos colocá-la na água. Nós três!

O Riacho Cantador cantava de verdade: din-din-din sobre as pedrinhas. A mamãe sentou na margem com seu tricô, e Lili ao lado dela, com uma folhinha nas patinhas. E de repente, da água, tchibum! surgiu uma cabeça com touca turquesa, e uma nuvem inteira de respingos voou em cima de Ruivinho.

— Tchibum, e pronto! — gargalhou Tchibum. — Agora você também é lontra!

Ruivinho se sacudiu. As orelhas dele ficaram em pé.

— E você, quem é?

— Eu sou o Tchibum. Amigo do Timko.

— O amigo do Timko sou eu — disse Ruivinho. — Eu o conheço desde a creche.

— Pois eu brinco com ele todo dia — não cedia Tchibum. — E você só vem de visita.

Timko riu, porque pensou que era brincadeira. Mas não era brincadeira.

Ruivinho propôs uma corrida até o salgueiro velho e chegou primeiro. Tchibum propôs atravessar o riacho a nado e atravessou duas vezes enquanto Ruivinho testava com a patinha se a água estava muito fria. Depois jogaram pedrinhas para quicar: a do Tchibum pulou cinco vezes, a do Ruivinho três, e a do Timko só fez plop e foi para o fundo.

— Timko, quem é mais rápido? — perguntava Ruivinho.

— Timko, quem é mais ágil? — perguntava Tchibum.

E Timko só queria uma coisa: que a balsa finalmente flutuasse.

Mas com a balsa também não deu certo. Ruivinho queria colocar o mastro no meio, Tchibum, na frente. Cada um puxava o gravetinho para si, e cada um gritava:

— Timko, diga a ele!

— Timko, vamos, diga!

Foi então que Tchibum olhou para o rabo do Ruivinho, molhado dos respingos, e deu uma risadinha:

— Seu rabo parece uma vassoura molhada!

— Vassoura molhada! — repetiu Lili, toda contente, da margem.

Ruivinho baixou as orelhas. E Timko sentiu a ponta do nariz esquentar. Ficou com raiva. Do Tchibum, da vassoura molhada, daquele dia que ele esperara tanto e que escorria das patinhas como areia.

— Pare! — gritou Timko. — Você não é meu amigo coisa nenhuma! É só um vizinho que respinga em todo mundo. Meu melhor amigo é o Ruivinho!

Fez-se silêncio. Só o riacho tilintava, como se nada tivesse acontecido.

Tchibum não respondeu nada. Pôs o gravetinho na balsa e escorregou para dentro da água. Sem um único «tchibum». Timko viu pela primeira vez que Tchibum sabia fazer aquilo.

E na margem, Lili olhava para o irmão com os olhinhos redondos e mexia os lábios, como se estivesse decorando alguma coisa.

A balsa, Timko e Ruivinho colocaram na água mesmo assim. Só que quem sabia amarrá-la com juncos era Tchibum, e eles não sabiam. A balsa balançou, girou e se desfez em quatro gravetinhos, que saíram flutuando cada um para um lado.

— Tanto faz — disse Ruivinho. Mas não gritou mais «Eu primeiro!».

No almoço, a mamãe cortou a torta em quatro pedaços: para Timko, Ruivinho, Lili e Tchibum. O pedaço do Tchibum ficou no prato.

Depois os amigos brincaram de esconde-esconde, mas nem o esconde-esconde dava certo. Ruivinho ficou muito tempo calado, e então perguntou:

— Timko, quando vier visitar você mais alguém novo, você vai dizer isso para mim também? Que eu não sou seu amigo?

— Não! — assustou-se Timko. — Nunca!

Ruivinho fez que sim. Mas sem muita certeza.

Quando o sol se pôs atrás dos freixos, a mãe do Ruivinho veio buscá-lo. Os amigos se abraçaram na varanda, com cuidado, para não se espetar.

— Tchau — disse Ruivinho.

E foi embora. O Bosque dos Carvalhos era longe, e Timko sabia que Ruivinho não voltaria tão cedo. E aquele dia, que os dois tinham esperado tanto, não dava mais para trazer de volta.

Timko sentou no degrau. A mamãe sentou ao lado dele e não perguntou nada. Então Timko falou sozinho:

— Eu fiquei com raiva. E agora estou com vergonha.

A mamãe fez que sim. Embrulhou o pedaço de torta do Tchibum numa folha de bardana e entregou a Timko.

O riacho era bem pertinho, mas as patinhas iam devagar, devagarinho. Junto ao salgueiro, Timko parou, bufou pelo narizinho e sussurrou:

— Inspira, expira… e vamos lá!

Não ficou mais fácil. Mas ele foi assim mesmo.

Tchibum estava sentado numa pedra, olhando a água. Não espirrava água, não mergulhava, só ficava sentado.

— Tchibum — disse Timko. — Me desculpe. Eu disse uma coisa que não é verdade. Você é meu amigo.

Estendeu a torta na folha de bardana. Tchibum ficou olhando para ela um bom tempo e depois pegou.

— Eu desculpo — disse ele, dando uma mordida. — Está gostosa.

Timko ficou feliz:

— Então amanhã a gente amarra a balsa de novo?

Tchibum pensou.

— Amanhã acho que vou brincar sozinho. Ainda dói um pouco aqui. — E tocou o peito com a patinha. — E diga ao Ruivinho que a história da vassoura não foi por maldade.

E escorregou para dentro da água. Dessa vez com um «tchibum» baixinho, quase inaudível.

Em casa, a mamãe levou Timko até a régua de altura no batente da porta da cozinha. O papai ainda estava aplainando alguma coisa na oficina, então dessa vez foi a mamãe quem pegou o lápis.

— O que vamos desenhar ao lado da marca de hoje? — perguntou ela.

Timko pensou.

— Duas patinhas. Lado a lado.

— De quem?

— Ainda não sei — disse Timko com sinceridade. — Por enquanto, que sejam só duas.

A mamãe desenhou duas patinhas pequenas. Mais embaixo, na régua, ia a fileira de marcas da Lili, e agora era a vez dela.

— Lili, venha cá! — chamou Timko. — Vamos medir você!

Lili escondeu as patinhas nas costas, balançou a cabeça e disse bem claro, exatamente com a voz do irmão:

— Você não é meu amigo coisa nenhuma!

E riu, porque achava que era uma brincadeira.

Timko ficou paralisado. Deu vontade de se enrolar numa bolinha e esconder o nariz nas patinhas.

— Ela repete tudo o que ouve — disse a mamãe baixinho. — Amanhã talvez esqueça. Ou talvez não.

Timko olhou para as duas patinhas pequenas na régua. Uma balsa dá para amarrar de novo, uma torta dá para assar outra. Mas uma palavra dita segue seu caminho, como um gravetinho no riacho, e a gente nunca sabe quem vai pescá-la.

Gostou da história?

Uma história original escrita para este site.

Para os pais

Sobre o que é a história

Um conto sobre uma briga entre amigos. Ruivinho e Tchibum disputam quem é o melhor amigo do Timko, e Timko, com raiva, diz o que não pensa. Dá para pedir desculpa, mas o que foi dito não se esquece de uma vez. As crianças vão se reconhecer no «Eu primeiro!» e na Lili, que repete tudo.

O que ensina

  • Amizade
  • Honestidade
  • Responsabilidade

Perguntas para conversar com a criança

  • Por que Tchibum mergulhou na água sem fazer nenhum «tchibum»?
  • O que Timko sentiu quando Lili repetiu as palavras dele?
  • Na sua opinião, de quem são as patinhas desenhadas na régua?

Em casa

Encenem com brinquedos a discussão de Ruivinho e Tchibum junto à balsa. Deixe seu filho ser Timko e Tchibum e achar palavras para dizer «estou com raiva» sem magoar ninguém.

Uma frase para lembrar

“Mas uma palavra dita segue seu caminho, como um gravetinho no riacho, e a gente nunca sabe quem vai pescá-la.”

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