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Histórias

Timko se muda

A família do Timko se muda para a Clareira dos Freixos: hora de se despedir do Ruivinho, da Pipoca e da casinha velha, e de achar um amigo novo.

Série “Timko” · história 6 de 9

  • Um pouco triste
Para os pais

A casinha do Timko no Bosque dos Carvalhos era toda redondinha, com musgo no telhado. Antes, ela era do tamanho certo para três. Aí a Lili chegou, cresceu, aprendeu a correr, e a casinha ficou apertada como casca de noz. Onde quer que se pisasse, lá estava a bola da Lili, a colherzinha da Lili ou a própria Lili.

Por isso o papai passou o verão inteiro indo para o outro lado da floresta, construindo uma casa nova: maior, com porta verde e varanda, na Clareira dos Freixos, perto do Riacho Cantador. E hoje a família ia se mudar.

Desde cedo a mamãe assava. Uma torta, outra, uma terceira…

— Mamãe, pra que tantas? — estranhou o Timko.

— Vou assar uma torta, por via das dúvidas — sorriu a mamãe, e pôs a quarta no forno.

O Timko só bufou. Que dúvidas? Tudo na casa já estava em trouxas e cestos. A cozinha vazia ecoava como oco de árvore: você diz «ai» e as paredes respondem «ai».

O papai parou junto à porta da cozinha e ficou um bom tempo olhando o batente. Ali estava pregada uma tabuinha, e nela havia riscos de lápis: a altura do Timko. Ao lado de cada risco, o papai tinha desenhado um desenhinho minúsculo: um coração, uma mochila, uma estrela, uma cruz de curativo, um dentinho. Mais embaixo corria uma segunda fileira, a da Lili, só pontinhos, porque a Lili ainda era pequena.

— A gente vai deixar ela aqui? — perguntou o Timko baixinho. Ficou tão triste que o nariz até coçou.

O papai não disse nada. Pegou o alicate — nhec, nhec — e tirou os pregos com cuidado. A tabuinha ficou nas suas patas.

— A gente leva — disse o papai. — Sem ela, como é que vamos saber quanto você cresceu?

O Timko se aninhou no papai. E a Lili veio correndo e se aninhou também, porque ela fazia tudo igual ao Timko.

Lá fora, a carroça do papai esperava, cheia de trouxas. E ao lado da carroça estavam o Ruivinho e a Pipoca.

— Eu vim me despedir primeiro! — gritou o Ruivinho. — Eu primeiro!

Ele correu para abraçar o Timko, e com tanta força que quase o derrubou. A Pipoca chegou de mansinho: a mesma Pipoca que o Timko tinha acompanhado uma vez com a lanterna até a toca. Ela ficou na pontinha dos pés e ajeitou o cachecol vermelho do Timko.

— Você está com medo? — perguntou o Timko. — Sem mim, digo.

— Só um pouquinho — disse a Pipoca. Depois pensou e acrescentou, sincera: — Mas triste eu estou. Muito.

Os três ficaram ali, calados. Ainda ontem tudo era simples: de manhã a creche, depois do almoço esconde-esconde debaixo do carvalho, de tarde «até amanhã!». E agora não dava mais para dizer «até amanhã». A Clareira dos Freixos ficava longe, do outro lado da floresta. Dali não dá para vir correndo todo dia.

— Venha me visitar — resmungou o Ruivinho, fungando. — Não, melhor eu ir aí. Eu chego primeiro, tá?

— Tá — disse o Timko, e a voz dele ficou fininha, fininha.

A mamãe distribuiu as tortas: para a mãe do Ruivinho, para a avó da Pipoca, para os ouriços vizinhos e até para o velho texugo, que saiu para ver que barulho era aquele. E uma torta, embrulhada num pano, ela pôs lá no alto da carroça.

— E essa é pra quem? — perguntou o Timko.

— Por via das dúvidas — disse a mamãe de novo.

De repente — frrr! — a Vovó Coruja desceu voando do carvalho e pousou na beirada da carroça.

— Vovó, e a senhora? — os bigodes do Timko tremeram. — A senhora fica aqui…

— Uh-uh! Lá vai uma adivinha — disse a Coruja, ajeitando os óculos. — Para as patinhas, um dia inteiro de estrada; para as asas, três batidas. O que é?

O Timko pensou, pensou, e não adivinhou.

— Não faz mal — piscou a Coruja. — De tarde você me diz.

— Como é que eu vou dizer, se a senhora está aqui e eu lá?

— Pois pense nisso — piou a Vovó Coruja.

Nhec, nhec, a carroça saiu rolando. O papai puxava, a mamãe levava o cesto, a Lili ia lá em cima entre as trouxas, e o Timko caminhava atrás, olhando para trás toda hora. A casinha redonda ficava menor, menor ainda, e por fim sumiu atrás dos carvalhos. O Timko sabia que eles não voltariam lá. A casinha ficou parada sozinha, vazia e quieta, e isso deixou o peito dele pesado, como se tivesse engolido uma pedrinha.

A estrada serpenteou por muito tempo, por entre aveleiras, por entre samambaias, por clareirinhas ensolaradas. E então apareceram os freixos, esguios e claros, e entre eles a casa nova. Grande, cheirando a serragem fresca, com porta verde e varanda.

— Esta é a sua janela — mostrou o papai. — O seu quarto.

Um quarto só dele! Ainda ontem o Timko sonhava com isso. E agora estava na soleira e não conseguia dar um passo. A casa era bonita, mas estranha.

O Timko parou, bufou pelo narizinho e disse:

— Inspira, expira… e vamos lá!

— Inspila! Expila! Vamo lá! — guinchou a Lili, e foi a primeira a entrar correndo na casa, tap, tap, tap.

O Timko riu. Ajudou um pouquinho. Só um pouquinho.

Para não ficar parado na soleira, foi até o riacho. A água tilintava nas pedrinhas, tlim, tlim: não era à toa que se chamava Riacho Cantador. De repente, tchibum! Da água saltou alguém molhado e liso, de touca de natação turquesa, deu uma cambalhota no ar e, tchibum!, sumiu de novo.

— Tchibum, e pronto! — gritou o filhote de lontra, aparecendo bem na margem. — Quem é você?

— Timko. A gente… acabou de se mudar pra cá.

— Eu sou o Tchibum! Moro aqui. Você sabe fazer barquinho de folha? E mergulhar? E pegar onda com o nariz?

O Timko não sabia nada disso. Ficou ali sem saber o que dizer. Em casa, com o Ruivinho, as palavras vinham sozinhas, mas ali não.

Então ele se lembrou. Correu até a carroça e achou lá em cima a torta no pano.

— Mamãe, posso?

— Eu não disse? — sorriu a mamãe. — Por via das dúvidas.

Foi assim que se descobriu para quem era aquela torta a mais. O Timko e o Tchibum sentaram numa pedra morna, comeram, jogaram migalhas para os peixinhos, e o Tchibum mostrou como dobrar uma folha para fazer um barquinho. O primeiro barquinho do Timko virou na hora.

— Tchibum, e afundou! — gargalhou o Tchibum. — Não faz mal, amanhã eu te ensino. Amanhã você vem, né?

— Venho — disse o Timko. E ele mesmo se surpreendeu com a facilidade com que saiu.

No fim da tarde, o papai pregou a tabuinha no batente novo da cozinha. Toc, toc, e ela já estava no lugar, como se sempre tivesse estado ali.

— Fique em pé aí — disse o papai.

O Timko ficou bem retinho e esticou o pescoço. O papai pôs a pata no alto da cabeça dele e começou a revirar os bolsos.

— Cadê o meu lápis?

O Timko apontou em silêncio para a orelha do papai. O lápis, como sempre, estava espetado ali mesmo.

O papai fez um risco novo — mais alto que o dentinho! — e desenhou ao lado uma casinha minúscula. O primeiro risco no lugar novo. A Lili, claro, também quis, e embaixo apareceu mais um pontinho dela.

Depois o Timko entrou pela primeira vez no seu quarto. Pôs a lanterna da vovó no parapeito, sentou na cama e ficou olhando os freixos lá fora ficarem azulados. As sombras ali eram novas, desconhecidas, e ele sentiu um friozinho.

De repente, na janela se acenderam duas luzinhas cor de âmbar.

— Vovó! — o Timko pulou até a janela. — Eu adivinhei! É o caminho até a nossa casa nova! Para as patinhas, um dia inteiro; para a senhora, três batidas!

— Uh-uh, adivinhou! — piou satisfeita a Vovó Coruja. — Eu não disse que de tarde você me contaria?

Eles conversaram muito pela janelinha. O Timko contou do Tchibum, do barquinho que virou e do risco novo com a casinha. E depois perguntou:

— Vovó, o Ruivinho e a Pipoca também vão voar até aqui?

— Eles não têm asas, Timko — disse a Coruja com carinho. — Vão vir visitar. Não todo dia, mas vão vir.

O Timko ficou calado. Amanhã, debaixo do velho carvalho, iam brincar de esconde-esconde de novo, só que sem ele. E na casinha redonda com musgo no telhado ninguém mais ia dizer «ai» só para ouvir as paredes responderem. Isso deixava ele triste, e essa tristeza não ia embora.

Mas na cozinha estava pendurada a tabuinha com todos os riscos, os antigos e o novo. Casinha velha a gente não leva. Mas tudo o que cresceu nela, a gente leva.

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Uma história original escrita para este site.

Para os pais

Sobre o que é a história

Uma história para famílias que estão de mudança. O Timko fica triste de se despedir da casinha velha e dos amigos, e a casa nova a princípio parece estranha; ninguém espanta essa tristeza. As crianças esperam as tortas da mamãe «por via das dúvidas» e tentam adivinhar a adivinha da Vovó Coruja.

O que ensina

  • Família
  • Amizade
  • Coragem

Perguntas para conversar com a criança

  • Por que o Timko estava triste, se a casa nova era maior e mais bonita?
  • Para quem era, de verdade, a torta da mamãe «por via das dúvidas»?
  • O que você levaria se se mudasse, e o que ficaria só na lembrança?

Em casa

Façam a sua própria tabuinha de altura: meçam a criança numa tira de papel junto ao batente de uma porta e desenhem ao lado uma imagem deste dia. Uma tira assim é fácil de levar para a casa nova.

Uma frase para lembrar

“Casinha velha a gente não leva. Mas tudo o que cresceu nela, a gente leva.”

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