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Histórias

Rexik, Trika e o Mistério das Grandes Pegadas

Perto do pântano aparecem pegadas enormes de três dedos, e Rexik, como um verdadeiro detetive, descobre quem anda mesmo por lá.

Série “Rexik” · história 5 de 9

Desenhos para colorir desta história

  • Um pouco assustador
  • Um pouco perigoso
Para os pais

Naquela semana, apareceu um gigante no Vale das Samambaias. Pelo menos era o que diziam todos que tinham visto as pegadas dele perto do Pântano Negro.

E tudo começou na noite anterior. Rexik e Trika chegaram correndo em casa, enlameados até os olhos. Tinham passado o dia inteiro pulando de touceira em touceira no pântano, para ver quem ia mais longe.

— O pântano de novo? — O papai franziu a testa com tanta força que as sobrancelhas grossas se encontraram no meio. — Quantas vezes eu já falei: não corram para lá!

— E por quê? — perguntou Trika.

— Porque eu disse que não! — trovejou o papai.

Trika só deu de ombros. O pai do Rexik trovejava todo dia, e o vale inteiro já estava mais do que acostumado.

— E eu ganhei — cochichou ela para o Rexik. — Por três touceiras inteirinhas.

Naquela noite, o papai ficou muito tempo sentado atrás do ninho. De lá vinha um barulho: crec, crec, toc. O papai roía e entalhava com os dentes um tronco grosso, e as lascas voavam para todo lado.

— Papai, o que você está fazendo? — perguntou Rexik.

— Uma tigelinha para a mamãe — disse o papai, e escondeu o tronco atrás das costas.

A mamãe, sem levantar a cabeça, disse:

— Uma tigelinha. Sei, sei.

E de manhã encontraram pegadas perto do pântano.

Em cada uma delas, Rexik poderia se enrolar todinho. Três dedos compridos e, na frente, buracos fundos das garras. As pegadas seguiam pela lama ao lado dos juncos, contornavam o pântano e sumiam perto das pedras chatas.

Na hora do almoço, o vale inteiro estava reunido na margem. Os adultos andavam em volta, farejavam, resmungavam e discutiam.

— Três dedos — disse o Tio Chifre, apontando com o chifre lascado. — E grandes. E quem aqui no vale tem três dedos e é grande?

Todo mundo se virou para o pai do Rexik.

— Essas patas não são minhas! — rugiu o papai, tão alto que as libélulas saíram voando dos juncos.

— É o que vamos ver — disse o Tio Chifre. — Pise aí!

O papai pisou na pegada. O pé dele coube lá dentro e ainda sobrou espaço: o gigante era maior que ele um passo inteiro do Rexik.

O Tio Chifre ficou piscando.

— Então... existe alguém maior que você?

— Parece que sim — disse o papai, e por algum motivo ficou olhando as nuvens com muita atenção.

— Então, a partir de hoje, ninguém põe o pé no pântano! — mandou o Tio Chifre. — Nem os pequenos, nem os grandes!

— Nem o pé! — concordou o papai, todo contente. — E nem a ponta do rabo!

Provavelmente era a primeira vez na vida que aqueles dois não discutiam por nada.

Os adultos foram embora, mas Rexik ficou. Ele achou um graveto reto e o partiu ao meio com uma mordida, para as duas metades ficarem iguais.

— O que você está fazendo? — perguntou Trika.

— Medindo — disse Rexik. — Um detetive de verdade primeiro mede e só depois se assusta.

— Pois eu primeiro assusto e depois meço! — Trika pegou impulso e pisou com tudo na lama. Bum!

A pegada dela saiu completamente diferente: redonda, larga e, na frente, quatro dedos curtos, como se alguém tivesse fincado na lama um toquinho com quatro botões.

— Viu? — Rexik encostou o graveto. — Os tricerátopos deixam pegadas redondas. Nas patas de trás, eles têm quatro dedos; nas da frente, cinco. Já nós, os tiranossauros, temos três dedos compridos, como um passarinho. — Ele colocou o próprio pé do lado. — Então esse gigante é um tiranossauro.

— Um parente seu — disse Trika, toda solene.

— Melhor não falar isso, né? — pediu Rexik.

Ele foi seguindo o rastro e mediu cada pegada. E a cada uma franzia mais a testa.

Primeiro: as pegadas não começavam em lugar nenhum. A primeira estava bem do lado das pedras, como se o gigante tivesse caído do céu e saído andando. A última também ficava perto das pedras. E nas pedras, nada.

Segundo: o graveto afundava sempre igual em cada pegada, até o mesmo entalhe. Na lama mole, igual; no barro duro, igualzinho. Mas o papai, naquele dia, tinha afundado na lama até os tornozelos, porque o papai é pesado. Um gigante maior que o papai teria que afundar ainda mais.

Terceiro: os passos eram certinhos, como se fossem desenhados. Um bicho de verdade às vezes dá um passo maior, às vezes um menor, às vezes contorna uma poça. Mas esse gigante não tinha contornado nenhuma.

E quarto... No dedo do meio de cada pegada havia uma pequena marquinha redonda. Sempre a mesma. Em cada pegada esquerda e em cada pegada direita também. Como se naquele dedo houvesse um nó, igual aos da madeira.

Rexik ficou olhando para aquela marquinha por muito tempo. E se lembrou: crec, crec, toc.

— E aí? — perguntou Trika, impaciente. — O que foi?

— Ainda não sei — disse Rexik. E isso era quase verdade.

— Então vamos seguir a pista dele! — Trika chegou a dar um pulinho. — Hoje à noite. A gente se esconde atrás da Pedra Grande e vê o gigante com os próprios olhos!

— Melhor não, né? — disse Rexik. — O Tio Chifre mandou ninguém pôr o pé no pântano.

— Mas a gente não vai ao pântano. A gente vai à pedra. Pedra não é pântano!

Rexik suspirou. Ele sabia que Trika iria mesmo sem ele. E, além disso, estava louco para saber se tinha medido direito.

À noite, o papai não entalhou nada. Estava quietinho, quietinho, e quando a lua apareceu, jogou no ombro uma trouxa pesada de folhas.

— Vou pescar um pouco — disse ele.

— De noite? — perguntou a mamãe.

— De noite os peixes ficam... sonolentos. Entram sozinhos na boca da gente.

— Sei, sei — disse a mamãe.

Assim que os passos do papai sumiram, Rexik escapuliu do ninho. Perto das samambaias, Trika já estava esperando, e a gola amarela dela brilhava sob a lua como uma lanterna.

— Esconde essa gola — sussurrou Rexik.

— Como é que eu vou esconder? Ela é grudada em mim!

Os dois foram de mansinho até a Pedra Grande e se deitaram atrás dela. Do pântano vinha um ar frio. Os sapos coaxavam. Em algum lugar no escuro, alguma coisa borbulhava: blup... blup.

Por muito tempo não aconteceu nada. Trika já tinha começado a bocejar quando, de repente, os sapos se calaram.

Toc.

Toc.

Toc.

Acima dos juncos surgiu uma sombra preta enorme. Ela se abaixava, colocava alguma coisa na lama, pisava em cima e seguia em frente.

— O gigante! — Trika apontou os chifrinhos. — Agora eu vou...

— Psiu! — Rexik segurou a gola dela. — Escuta!

A sombra cantarolava uma musiquinha. E tão desafinada que os sapos deviam estar com vontade de tapar os ouvidos:

— Que-em anda no pânta-ano... toc... vai se arrepende-er... toc...

Trika abaixou os chifrinhos.

— Rexik — disse ela devagar. — Eu só conheço um que canta assim.

— Eu também — suspirou Rexik.

A lua saiu de trás de uma nuvem. Perto do pântano estava o papai. Ele segurava um bloco de madeira, roído no formato de uma grande pegada de três dedos. Colocava o bloco na lama, apertava com o pé por cima — toc! — e levava um passo adiante. E ele mesmo pisava nas pedras chatas, onde não ficam pegadas.

Nisso, os juncos estalaram, e de lá pulou o Tio Chifre.

— AHÁ! — rugiu ele. — Te peguei, gigante!

O papai levou um susto tão grande que deixou o bloco cair. Ploft! E o bloco afundou na lama até os dedos.

O Tio Chifre, pelo jeito, também estava de tocaia. Ele queria pegar o gigante sozinho e depois passar o resto da vida contando quem era o mais corajoso do vale.

Mas agora ele olhou para o papai, para o bloco... e caiu numa gargalhada tão forte que todas as libélulas que ainda restavam nos juncos saíram voando.

— Um gigante! — gargalhava ele. — Um gigante com um blocozinho de madeira! Maior que você um passo inteiro! Ai, não aguento!

O papai ficou ali parado, sem saber para onde olhar. Então viu Rexik e Trika saindo de trás da pedra.

— E vocês, o que estão fazendo aqui? — perguntaram juntos o papai e o Tio Chifre.

— Caçando o gigante — disse Trika com toda a sinceridade. — Que nem vocês.

Rexik foi até o papai.

— Papai, por quê?

O papai ficou calado por muito tempo. Rexik nunca o tinha visto tão quieto.

— Para vocês pararem de correr para o pântano — disse o papai, por fim. — Eu falava, e vocês iam mesmo assim. Aí eu pensei: vou assustar vocês. Um gigante vocês iam obedecer.

— E por que você não explicou de uma vez por que não pode ir lá?

O papai se sentou numa pedra.

— Quando eu era do seu tamanho — começou ele —, fiquei preso neste pântano. Até a barriga. A lama me puxava para baixo, e quanto mais eu me debatia, mais eu afundava. Meu pai ficou me puxando até de manhã.

O Tio Chifre parou de rir. Trika olhava para o papai com os grandes olhos verdes arregalados.

— Essa também é inventada? — perguntou ela, cochichando.

— Não — disse o papai. — Essa é justamente verdade.

O Tio Chifre pigarreou.

— Bom — disse ele, já não tão alto —, é a primeira vez que eu ouço você falar a verdade. Por isso valeu a pena passar a noite inteira nos juncos.

Todos voltaram juntos para casa. Quem carregava o bloco era o Rexik.

A mamãe não estava dormindo. Estava sentada perto do ninho e não ficou nem um pouco surpresa.

— Você sabia? — espantou-se Rexik.

— Tigelinha, é? — disse a mamãe. — Três noites seguidas. E tigelinha no ninho que é bom, nada. Os ouvidos da mamãe escutam tudo, filho. Até um tronco estalando.

O papai ficou vermelho, mesmo já sendo laranja-avermelhado.

Na manhã seguinte, o vale inteiro já sabia do gigante do blocozinho. Como? Ninguém sabia dizer. Se bem que o Tio Chifre, provavelmente, sabia.

Ele zombou do papai por muito, muito tempo. Toda vez que o papai ia para o rio, o Tio Chifre gritava para o vale inteiro ouvir:

— Cuidado! Lá vem o gigante! Escondam os troncos!

E o papai, pela primeira vez na vida, não soube o que responder mais alto.

— E agora pode ir ao pântano? — perguntou Trika. — O gigante nem existe!

— NÃO! — berraram juntos o papai e o Tio Chifre.

Saiu tão igualzinho de alto que eles nem conseguiram discutir quem tinha gritado mais forte.

— O gigante não existe — disse a mamãe, com carinho. — Mas o pântano existe.

Trika suspirou e, dessa vez, não discutiu. Primeiro pensou.

À noite, Rexik se sentou perto da sua prateleirinha. Lá estavam uma pedrinha listrada, uma pena e uma concha. E agora, bem no meio, ficava o bloco de madeira em forma de pegada, com três dedos e um nozinho no do meio.

— Tesouro do dia — disse Rexik.

— Vexame do dia, isso sim — resmungou o papai.

Rexik subiu no ninho. O papai se ajeitou ao lado e começou, como sempre:

— Quando eu era do seu tamanho...

E parou. Pensou.

— ...fiquei preso no pântano. E isso é verdade.

— Essa eu já ouvi — sorriu a mamãe. — Mas essa dá para ouvir duas vezes.

Rexik fechou os olhos. A história verdadeira do papai dava mais medo que qualquer gigante. E agora, mesmo sem bloco de madeira nenhum, ele sabia por que não se pode ir ao pântano. E com esse pensamento ele adormeceu.

Gostou da história?

Uma história original escrita para este site.

Para os pais

Sobre o que é a história

Perto do Pântano Negro aparecem pegadas enormes de três dedos, e o vale inteiro decide que um gigante se mudou para lá. Rexik pega um graveto e mede as pegadas como um verdadeiro detetive, mas as pistas não batem. As crianças gostam de desvendar o enigma com ele e reparar nos mesmos detalhes.

O que ensina

  • Esperteza
  • Honestidade

Perguntas para conversar com a criança

  • Quais foram as quatro pistas que o Rexik percebeu de que as pegadas não eram de um gigante de verdade?
  • Por que o papai resolveu assustar as crianças em vez de explicar? O que você acha que teria sido melhor?
  • Por que ainda não pode ir ao pântano, mesmo sem ter gigante nenhum?

Em casa

Contornem no papel o pé de cada pessoa da família, meçam as pegadas e comparem. Depois, alguém embaralha as folhas e os outros adivinham de quem é cada marca e por quê.

Uma frase para lembrar

“Um detetive de verdade primeiro mede e só depois se assusta.”

Esta história em outros idiomas

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